
Criada após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações falhou porque foi uma organização sem força, sem legitimidade universal e sem mecanismos para impedir a guerra. Falhou em responder a crises importantes, como a invasão da Manchúria pelo Japão (1931), da Etiópia pela Itália (1935), na Guerra Civil Espanhola (1936–1939) e quando a Alemanha nazista anexou a Áustria e a Tchecoslováquia.
A Grande Depressão de 1929 criou instabilidade política e social, facilitando a ascensão de líderes autoritários como Hitler e Mussolini, que desprezavam o multilateralismo da Liga. Depois do segundo grande horror do século 20, a Organização das Nações Unidas surgiu como uma burocracia mais estruturada e com legitimidade do que a antiga Liga das Nações. Mas sua grande inovação, a criação do Conselho de Segurança, principal órgão responsável por garantir a paz, e o poder de veto aos cinco membros permanentes — EUA, Rússia, China, Reino Unido e França – é também a expressão de seus limites.
Se qualquer um deles votar contra uma resolução, ela é barrada, mesmo que todos os outros estejam a favor. Isso impede ações eficazes em conflitos onde uma potência está diretamente envolvida ou tem aliados: a Rússia veta resoluções sobre a guerra na Ucrânia; os EUA vetam resoluções sobre Israel e Palestina.
Balança de forças
E, no dia a dia, manda quem tem mais poder. Todos os anos vemos isso nas COPs, em documentos pouco efetivos para conter o aquecimento global – e os mais poluidores são também aqueles que se ausentam ou desdenham os acordos. A crise entre os EUA e a Venezuela expõe a incapacidade da ONU de exercer a função para a qual foi criada: evitar a guerra. Tal qual a Liga das Nações.
Ainda assim, a ONU tem papel importante em missões humanitárias, negociações de paz, mediação de conflitos e construção de consensos multilaterais. Mas sua eficácia como “polícia do mundo” é limitada pela própria lógica do sistema internacional.
A ONU, mesmo com suas falhas, ainda é o melhor fórum multilateral que temos – mas para que ela realmente possa evitar guerras ou intervir com eficácia, seria necessário reformar profundamente sua estrutura, sobretudo o Conselho de Segurança, para que represente a estrutura de poder atual, não apenas com cinco membros, mas com outras potências, como Brasil, Alemanha, Índia, Japão, África do Sul, por exemplo. Acabar com o poder de veto. Empoderar a Assembleia Geral.
Qualquer movimento exigiria a aprovação do Conselho de Segurança e posição unânime dos cinco membros permanentes, que não irão abrir mão do poder, o que nos faz cair em um círculo vicioso. O futuro é sombrio: reformas só ocorrem após grandes rupturas históricas, como foi o caso da criação da ONU após a Segunda Guerra.
Será preciso um novo choque internacional – como uma guerra mundial, catástrofe climática ou colapso econômico global – para que uma nova ordem multilateral surja.





