
Eduardo Oestreicher trabalha com as relações comerciais entre Brasil e Venezuela há mais de 30 anos: viu o país vizinho antes de Hugo Chávez e, agora, o observa depois de Nicolás Maduro.

Atualmente, ele é presidente da Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio e Indústria de Roraima e coordenador de Negócios Internacionais do governo do Estado de Roraima.
Em entrevista à coluna, direto de Boa Vista, ele falou sobre o cenário atual, em meio à crise deflagrada pela ação militar americana, no sábado (3), e a prisão de de Maduro.
Qual a sua percepção do que está acontecendo agora na Venezuela?
Vi a Venezuela antes da entrada de Hugo Chávez e depois. Se você perguntar isso para qualquer venezuelano que esteja fora do país, ele dirá que esté é um novo nascimento. Os Estados Unidos planejaram entrar e capturar Maduro, buscando recolocar, principalmente, suas indústrias dentro de um bom mercado, que é o venezuelano. Refiro-me a indústrias na área de energia e outras. Se você chegar a Puerto Ordaz, verá como a cidade planejada era linda. Parece uma cidade americana, tanto que foi construída por americanos por estar perto de uma grande reserva de minério de ferro, às margens do Rio Orinoco. Do outro lado do rio, descobriu-se depois uma grande bacia petrolífera; antes, o petróleo era concentrado apenas no Lago de Maracaibo. A Venezuela era um país onde qualquer cidadão, do nível mais baixo ao mais alto, tinha condições de sobrevivência. Em qualquer bar, lanchonete ou restaurante, havia sempre alguém lendo um jornal ou um livro. Ou seja: eles tinham, além da condição econômica, cultura. Essa era a Venezuela. Houve uma queda na capacidade dos políticos: uma queda de ética e de moral, que deu abertura para que surgissem políticos com outra ideologia. Foi quando Chávez percebeu a oportunidade. Não foi apenas a ideologia do governo que entrou, mas o reflexo de uma decadência dos governos anteriores, com escândalos de corrupção que foram abrindo espaço para Chávez. Nesse momento a Venezuela inicia o estágio que culminou nos dias de hoje.
A Venezuela era um país onde qualquer cidadão, do nível mais baixo ao mais alto, tinha condições de sobrevivência.
EDUARDO OEDTREICHER
Presidente da Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio e Indústria de Roraima.
Como estava o comércio entre Brasil e Venezuela nos últimos meses e como fica agora?
Olhando os dados de Roraima, por exemplo, a Venezuela é o nosso principal parceiro comercial no comércio exterior, mas decaímos muito. Em 2022, empresas de Roraima exportaram US$ 378 milhões de dólares para a Venezuela. Depois, os números caíram, e, em 2025, fechamos com US$ 95 milhões. Identifico duas razões para isso. Nossos custos internos aumentaram muito. Com isso, deixamos de ser competitivos para alcançar o mercado venezuelano. Estamos competindo com Turquia, China e México.
O que vocês exportam?
Principalmente, produtos industrializados. Mesmo que Roraima não os produza, o produto vem até aqui e uma empresa local exporta. O que não produzimos, distribuímos, gerando emprego e renda. Também passamos a exportar muito farelo de soja, que já é produzido e industrializado no Estado. Hoje, é o nosso carro-chefe, junto com a soja em grão. Também exportamos diversos tipos de farinhas alimentícias (trigo e outras) já industrializadas, para que eles possam produzir, além de muito óleo de soja, açúcar e arroz.
Temos conversado muito sobre a situação, principalmente buscando "válvulas de escape" para exportar.
Como estão os contatos com as indústrias da Venezuela desde o ataque?
Conheço vários presidentes de instituições representativas do setor empresarial, como da Federação da Indústria, das Câmaras de Comércio, e diretores logísticos. Temos conversado muito sobre a situação, principalmente buscando "válvulas de escape" para exportar. Dizíamos a eles: "Olha, vocês ainda têm uma siderúrgica que, mal ou bem, funciona". Eles poderiam exportar o ferro ou alumínio. Eles também retomaram alguma produção petroquímica, como fertilizante de que precisamos. No entanto, quando colocam isso no papel, a margem do custo do produto fica muito apertada.
Não há dúvida de que esses líderes de câmaras desejam o fim do regime, certo?
Desejam melhorar, sim.




