
O governador em exercício de Roraima, Edilson Damião (Republicanos), recebeu a coluna na quinta-feira (8) à tarde, no Palácio Senador Hélio Campos, em Boa Vista, para uma entrevista em seu gabinete. O governador Antonio Denarium (Progressistas) viajou para Goiânia (GO) para um período de sete dias de férias. Curitibano de nascimento, Damião construiu sua vida política em Roraima.
Na conversa, ele falou sobre os desafios diante da crise na Venezuela, que levou ao Estado milhares de refugiados.
Como o senhor avalia o que houve na Venezuela?
Na verdade, pegou todo mundo digamos de surpresa. Os Estados Unidos há algum tempo já ameaçavam fazer essa invasão e, de repente, tudo aconteceu muito rápido. Muita gente, o povo venezuelano, está encarando com uma vitória. Vimos comemorações em diversas partes do país. Aqui mesmo, em Roraima, nessa praça, o Centro Cívico, foi tomada. Encaramos com muita responsabilidade, porque entendemos os dois lados. É uma questão do próprio país, e esperamos que essa situação se resolva da melhor maneira, pacífica. Queremos que o país volte à normalidade. Afinal, Roraima sentiu bastante os efeitos do que aconteceu lá. Por Roraima passaram mais de 1 milhão de venezuelanos. Hoje, temos 12% da rede escolar é de venezuelanos. A cada três horas nasce uma criança de pais venezuelanos na maternidade. Cerca de 30% do sistema prisional hoje de Roraima é ocupado por venezuelanos. Nossa parte social atende venezuelanos, ou seja, mais de R$ 10 milhões no ano passado foram gastos com venezuelanos: cesta básica, programas como Colo de Mãe e outras ações sociais foram gastos com venezuelanos. Roraima hoje está destinando parte do seu orçamento com venezuelanos.
A população reclama?
Talvez a palavra certa não seja reclamar, porque os venezuelanos hoje fazem parte do cotidiano do Estado. Estão ajudando Roraima. Cerca de 180 mil venezuelanos vivem em Roraima. Se você quiser hoje construir uma casa, de 10 homens que contratar como mão de obra, oito serão venezuelanos. Então, eles estão ajudando no processo construtivo também. Os venezuelanos não estão atrapalhando. Estão ajudando o Estado. Então, a palavra correta não é atrapalhar.
Não chega a haver xenofobia?
Essa palavra talvez seja muito forte. Mas temos toda essa questão da saúde, das matrículas escolares. O Estado tem um custo a mais com isso com essa população de outro país.
No sábado, vocês chegaram a sugerir fechar a fronteira. Por quê?
O que queríamos era evitar o colapso naquele momento de crise. Roraima se preparou e planejou. A população que teríamos em 2030 temos agora em 2026. Planejamos escolas, hospitais para 2030. A prova disso é o esgoto. A capacidade de esgoto de Roraima hoje já está saturada e essa população era para ser atingida em 2030 e ela foi atingida agora. As bombas do sistema de esgotamento do Estado hoje já estão super saturadas. Atingimos uma população que não era para atingirmos agora. Isso reflete em outras áreas, como saúde, infraestrutura e tudo.
Mas voltando ao sábado lá, chegou uma hora que vocês acharam que tinham de fechar a fronteira?
Exatamente. Nosso medo era justamente acontecer isso. E o governador, sabiamente, também preventivamente, com medo de acontecer isso novamente, ter uma nova superpopulação de novo em Roraima que a gente não tenha condições de receber. Então, o governador alertou, pediu ao governo federal: "Por favor, feche a fronteira que não temos condições de receber um outra leva de população de venezuelanos aqui, que não cabe no nosso Estado".
Roraima e União firmam acordo de R$ 115 milhões para custear impactos da migração venezuelana. É suficiente?
Não, pelo contrário. Esse valor diz respeito ao ex-governo de 2008 referente até 2019. Naquela época, o governo solicitou R$ 240 milhões, R$ 300 milhões. Então, isso se refere de 2008 a 2019. De 2019 para cá, o governo gastou outra quantia. Já estamos fazendo planejamento para solicitar também do governo federal o ressarcimento dessa quantia.
Vocês entraram na Justiça para receberem esse valor retroativo?
Exatamente. Agora, temos de solicitar ao governo federal essa nova quantia. O Estado também vem gastando de lá para cá. Inclusive agora, nesse momento, estamos gastando.
Em Pacaraima, observei muita entrada de venezuelanos ilegalmente, por rotas clandestinas. O que vocês estão fazendo para conter?
A Polícia Militar tem feito o trabalho que pode nos caminhos da BR-174 e aqui também, quando chega. Tentamos conter, mas, infelizmente, há essas pessoas que acabam passando por desvios, por outros caminhos e, infelizmente, acontece, e acabamos absorvendo essa população que não queremos: bandidos, aqueles que realmente não contribuem para a sociedade.
Em reunião com o presidente Lula, o governo quer construir um presídio federal em Roraima.
Exatamente. O governador, em outros momentos, já solicitou do presidente a possibilidade de construir um presídio aqui federal, aqui no nosso Estado, até porque a população carcerária hoje aqui de venezuelanos e de outras nacionalidades já passa de 30%.
Mas seriam só para venezuelanos?
Na verdade, não só venezuelanos, também temos outros, mas a maioria, a maior parte hoje é de venezuelanos.
Condenados pela Justiça?
Condenados pela Justiça, principalmente por crimes homicídios, assaltos. Esses que passam por esses caminhos que você acaba de acertar, geralmente são os que cometem os crimes.
Caso a situação se normalize na Venezuela, e os cidadãos queiram voltar. Qual será o impacto na economia? Vai faltar mão de obra?
Com certeza, faltará mão de obra. Não podemos mais falar de xenofobia por conta disso. Eles ajudam muito como parte da mão de obra, e isso tem contribuído bastante para o nosso Estado. Obras, hotelaria, restaurantes, eles têm ajudado bastante. Muitos já trouxeram a sua família, já estão até acostumados aqui no nosso Estado. Creio eu que vamos ter aí boa parte desses venezuelanos ficando aqui pelo Estado.
Como tem sido a relação com o governo da Venezuela, havia interlocução com o regime de Maduro?
Até agora, a nossa relação praticamente foi só política O govenador também não teve nenhuma relação, foi bem formal.
Mas vocês exportam bastante para lá.
A Venezuela deixou, com o governo Maduro, de produzir praticamente tudo. Passou a importar tudo o que consome. Roraima virou um corredor logístico. Açúcar, carne, frango, tudo passou por Roraima. Produzimos, ultimamente, soja, principalmente farelo de soja, está saindo muito de Roraima. Mas corredor logístico: açúcar, arroz e outros produtos acavam passando por aqui. E vai por terra.
O senhor imagina que vai ocorrer com a Venezuela?
A Venezuela já sofreu bastante. Acho que agora está na hora de ela voltar a ser aquele país encantador, de belezas naturais muito bonitas. De um turismo pujante, enriquecedor. Durante muitos anos foi um país admirado, e eu acho que vai voltar a ser esse grande país.


