
A história da Groenlândia é feita de lendas, desembarque de vikings, e sobretudo de uma divisão entre os interesses dos inuítes, o povo autóctone, e de colonizadores europeus (os groenlandeses surgem dessa miscigenação).
É claro que Donald Trump explora frestas de antagonismos que remontam à colonização.
Para não recuarmos muito no tempo (lá em 982, quando o viking Erik, o Vermelho chegou à ilha gelada e a batizou de Greenland), regressemos a 1721, quando o pastor norueguês Hans Egede desembarcou na ilha, iniciou o processo de colonização, convertendo os inuítes ao cristianismo.
Ainda que no Ártico, isolada, cheia de gelo e com todas as suas particularidades, a história da Groenlândia é semelhante a de outros países alvo do processo de expansão dos impérios europeus. À época que Egede chegou, Noruega e Dinamarca formavam apenas uma monarquia. Essa união se desfez em 1814, e a Groenlândia ficou com a Dinamarca. A divergência durou décadas, houve invasões por parte da Noruega, e a rixa só se encerrou mediante decisão da Corte Permanente de Justiça Internacional a favor dos dinamarqueses.
Como toda metrópole que precisa fazer valer a força sobre sua colônia, a Dinamarca chegou a levar crianças inuítes para Copenhague em um claro processo de inculturação. A ideia era que elas voltassem, um dia, para liderar o território. O crescimento populacional era um problema para o governo em Copenhague, já que a manutenção da Groenlândia custava dinheiro. A contracepção forçada foi praticada até a década de 1970.
Como se vê, a Dinamarca não foi tão "boazinha" como se poderia pensar diante das ameaças de Trump. Uma maior autonomia pelo território foi conquistada em 1979, quando os groenlandeses conquistaram duas cadeiras no parlamento nacional. Mas ela só se consolidou, de fato, em 2009.
Eu disse autonomia. Não independência. A maioria dos groenlandeses deseja a segunda opção. Mas não quer abrir mão do Estado de bem-estar social dinamarquês. O governo local depende de uma subvenção anual da Dinamarca e conta com apoio em defesa e segurança pública.
Em resumo: os groenlandeses desejam deixar, um dia, o guarda-chuva da Dinamarca. Mas isso não significa que querem cair nos braços dos Estados Unidos.






