
Como se sabe, Donald Trump não está preocupado em libertar povos oprimidos por regimes ditatoriais.
Não é por democracia. Seu negócio é dinheiro, mais precisamente acesso a petróleo. A ação armada contra Caracas e a captura de Nicolás Maduro bem como frases de Trump levam a pensar que os Estados Unidos e suas atitudes imperiais deste início de 2026 poderiam levar a uma guerra para depor a teocracia iraniana.
Mas o Irã não é a Venezuela.
A coluna explica por que o cenário no Oriente Médio é muito mais complexo do que na América do Sul.
Dinâmicas regionais
A começar por sua inserção na dinâmica regional. O país governado pelos fanáticos aiatolás está longe de ser a potência do Oriente Médio de anos atrás, que rivalizava com a Arábia Saudita pela hegemonia do Islã xiita. Foi um dos mais poderosos exércitos da região, mas vários episódios recentes levaram a seu enfraquecimento interno e externo: a guerra de 12 dias com Israel do ano passado, o bombardeio americano de junho, e o enfraquecimento de seus proxies (Hamas, Hezbollah e Houtis), seus tentáculos no Exterior, que levaram à perda relativa de poder dissuasório. A Venezuela não é uma potência militar, econômica ou política na América do Sul e não enfrentou guerras recentes.
Ditadura de outra vertente
Os dois regimes são ditaduras, mas de tipos diferentes. O Irã é governado desde a Revolução Islâmica, em 1979, por uma teocracia, que implantou a mais radical vertente da sharia. Um exemplo claro da repressão foi o caso de Mahsa Amini, que morreu sob custódia da polícia da moralidade apos ser detida por "uso inadequado do hijab".
O Irã é uma república islâmica teocrática, em que o Líder Supremo e os Guardiões da Revolução (IRGC) detêm o núcleo do poder político e de segurança. Essa estrutura que une religião e controle ideológico faz parte inseparável do Estado. Mesmo mudanças de presidentes não alteram essa lógica, porque o poder real está enraizado nas instituições religiosas e de segurança criadas após a Revolução de 1979 — uma máquina que não desaparece com um líder específico. Além disso, no Irã há instituições como os Tribunais Revolucionários Islâmicos, que julgam crimes políticos e ameaças ao regime sob padrões próprios, com procedimentos fechados e ampla discricionariedade.
A Venezuela, sob o chavismo-madurismo, foi e é um regime autoritário presidencialista, em que o poder foi centralizado no Executivo de Hugo Chávez e depois de Nicolás Maduro.
Como toda autocracia, a oposição é caçada, e não há liberdade de imprensa e expressão. A concentração de poder se dá mais por controle político e institucional do Estado do que por uma base teocrática ou ideológica estrutural.
A Venezuela, por sua vez, é secular. A ideologia que sustenta o poder não está baseada em uma religião oficial, mas em um projeto político‑social que combina nacionalismo, socialismo e culto à figura do líder. Essa ideologia é política, não teológica.
De olho no petróleo, sim. Mas com diferenças
Apesar das enormes reservas, a produção de petróleo venezuelano está muito abaixo de sua capacidade histórica. Decorrente de décadas de sucateamento da infraestrutura, falta de investimento e sanções internacionais, a produção chegou a cerca de 1,1 milhão de barris por dia, um nível modesto para um país com reservas gigantes. No passado, na década de 1970, o país chegou a produzir mais de 3,5 milhões de barris por dia. O Irã tradicionalmente produz petróleo em grande escala e exporta uma parte significativa, mas enfrenta restrições severas por causa de sanções dos EUA. Essas restrições reduzem tanto a capacidade de exportar quanto de obter tecnologias e investimentos externos atualizados. A maior parte do petróleo venezuelano é extra pesado e ácido, que demanda mais processo e custo de refino. O petróleo iraniano possui características menos extremas e é mais fácil de integrar ao sistema global de refino, o que historicamente o tornava mais competitivo no mercado internacional — quando não estava sob sanções. Isso o torna menos atraente para refinarias que preferem crudes leves e doces, e exige tecnologia e capital que o país tem dificuldade em acessar após anos de crise.
Crises diferentes
No Irã, o estopim para a crise atual foi a desvalorização do rial (moeda do país), a inflação e o desemprego. Esse cenário levou a uma contestação política. Na Venezuela, anos de deterioração econômica não produziram revoltas semelhantes. No Irã, a população iraniana, especialmente os jovens, tem histórico de mobilização diante de crises econômicas que impactam seu cotidiano. Apesar da gravidade da crise econômica, a resposta popular foi mais limitada e esporádica. Na Venezuela, mais de 7 milhões de venezuelanos deixaram o país, aliviando a pressão interna.
Sem rosto claro da oposição
Não há um rosto claro para a liderança da oposição no Irã. O nome mais conhecido é Reza Pahlavi, filho mais velho do xá e herdeiro do império milenar, que mora exilado nos EUA. Na Venezuela, ao longo dos últimos anos, mesmo sob o chavismo-madurismo, vários nomes ascenderam nas fileira da oposição, como Henrique Capriles, Leopoldo López, Juan Guaidó, e, mais recentemente, María Corina Machado e Edmundo González.
Riscos de ação militar
A ação na Venezuela foi um passeio para as forças armadas americanas, que anularam rapidamente o sistema de defesa antiaérea de Maduro - surpreendendo até especialistas, que acreditavam que a Rússia teria armado o país nos últimos anos para se defender de um possível ataque. Não está claro ainda como se deu a neutralização desses sistemas. A capacidade de defesa do Irã também não é das melhores, como mostrou a facilidade com que Israel e os EUA adentraram em seu espaço aéreo no conflito no ano passado. Mas a resposta dos aiatolás poderia ser mais efetiva — não tanto por meio de atentados terroristas, diante da fragilidade de seus braços, como Hamas e Hezbollah, mas por meio do lançamento de mísseis contra bases americanas na região (como Al-Udeid, no Catar), embarcações civis dos EUA no Golfo Pérsico, e ações aéreas contra Israel. Retaliações como o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo e a mesma quantidade do gás natural liquefeito mundial, também traria prejuízos à economia global.
O dia seguinte
Na Venezuela, Trump decidiu explorar fragilidades e disputas internas do regime para manter a ditadura no poder, seguindo suas vontades. No caso do Irã, dada a coesão da teocracia, isso seria praticamente impossível. A decapitação do líder levaria ao poder a Guarda Revolucionária, tão radical quanto os aiatolás. A ausência de fortes grupos de oposição poderia conduzir a uma disputa étnica entre grupos - e a uma guerra civil. O caos do Iraque pós-Saddam Hussein foi um dos aprendizados que fizeram Trump apostar na manutenção do regime bolivariano, sem Maduro. No Irã, essa não é uma opção.




