
Para entender a nova corrida pelo Ártico, vale recordar as lições de História.
Até o século 15, a rota comercial dominante, entre Índia e Europa, era terrestre e marítima. Especiarias, seda, ouro e porcelana da Ásia passavam por Constantinopla, o Levante e o Mar Vermelho. Os europeus dependiam de intermediários árabes e bizantinos. Era caro, lento, mas funcionava.
Em 1453, Constantinopla (hoje, Istambul) caiu sob a ocupação otomana, que passou a controlar os fluxos. A Europa precisava de um plano B: Portugal contornou a África, a Espanha tentou um atalho pelo Oeste e chegou à América, e o mundo deixou de girar pelo Mediterrâneo e passou a fazer negócio pelo Atlântico.
Nos séculos 19 e 20, o mundo passou a buscar atalhos. Em 1869, o Canal de Suez passou a ligar os mares Vermelho e Mediterrâneo (já não era mais necessário dar a volta na África), e, em 1914, o Canal do Panamá uniu o Atlântico e o Pacífico (sem contorno da América do Sul).
A nova corrida, as rotas do Ártico, não se dá por bloqueios, como no século 15. Mas por oportunidade. O aquecimento global, que leva ao derretimento das calotas polares, pode permitir, no futuro, que navios percorram pelo menos quatro rotas. Isso significa que o trajeto entre Ásia e Europa pode ficar até 40% mais curta. Os navios não precisariam mais cruzar os canais do Panamá e de Suez, barateando custos.
O uso comercial das rotas deve demorar, na avaliação de Fabrício Ávila, pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape).
— Fala-se muito na distância, mas o custo de energia para movimentar os navios na região é muito alto. Não sei se os fretes seriam compensadores - pontua.
O especialista salienta que, em casos como o da Passagem do Nordeste (veja o mapa), que passa pelo litoral da Rússia, o degelo, por exemplo, pode apresentar riscos como icebergs.
— Por mais bem aparelhados que os navios sejam, precisariam atuar em comboios, com quebra-gelo à frente. A área de congelamento está diminuindo, mas o inverno polar ainda deixaria as rotas fechadas pelo menos um trimestre — explica.
Os russos, por exemplo, têm mais navios quebra-gelos que os americanos.
A hipótese de Ávila é que estão montando infraestrutura militar para proteção de futuras rotas na região, devido às mudanças climáticas e como reserva de territórios com matérias-primas essenciais.
— Estrategicamente, pode servir aos EUA e países da Otan para isolar a Frota Norte russa (em Murmansk) para conter essa expansão, como foi a entrada da Finlândia na organização. Atualmente, não seria vantajoso o uso de rotas comerciais na região devido ao gasto de combustível para vencer distâncias árticas e oferecer proteção contra encalhes e icebergs — diz.
Claro que o interesse de Donald Trump pela Groenlândia não se explica apenas pelo interesse em novas rotas - lá estão as maiores terras raras do globo, mas Trump não precisa comprar a Groenlândia para explorá-las, uma vez que o governo do território já deixou claro que está aberto a investimentos. Em jogo, estão interesses estratégicos futuros e, sobretudo, o interesse em manter afastadas potências rivais, China e Rússia. A Groenlândia, com o perdão do clichê, é só a ponta do iceberg.



