
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Os países do Mercosul e da União Europeia (UE) assinaram, neste sábado (17), no Paraguai, um acordo aguardado há mais de 20 anos. O tratado estabelece o livre comércio entre os blocos, sendo considerado uma das maiores parcerias multilaterais das últimas décadas. A medida afetará diretamente mercados como o de alimentos, automóveis, autopeças e medicamentos.
A coluna reúne, abaixo, alguns dos principais pontos do acordo:
Abrangência
O acordo envolve 31 países e um mercado de 720 milhões de pessoas — 270 milhões no Mercosul e 450 milhões na União Europeia. Juntas, as nações possuem um PIB combinado de US$ 24,2 trilhões (dos quais 85% provêm da UE), representando 20,2% do PIB mundial.
Via de mão dupla
A estimativa é que o Mercosul elimine tarifas sobre cerca de 91% das exportações da UE ao longo de 15 anos. Em contra-partida, o bloco europeu deve retirar progressivamente as taxas sobre 92% das exportações do Mercosul.
Isso inclui a grande maioria dos produtos agrícolas e industriais. Especialistas estimam que empresas europeias economizarão cerca de 4 bilhões de euros anualmente em encargos, enquanto o Mercosul obterá acesso preferencial para suas exportações agrícolas.
Tarifas
Atualmente, carros europeus estão sujeitos a uma tarifa de 35% ao entrarem no Mercosul. O acordo eliminará gradualmente essas taxas, bem como as que incidem sobre máquinas europeias em geral. Além disso, setores como o tecnológico, farmacêutico e têxtil também serão beneficiados com a redução tributária.
Agricultura
A maioria dos produtos agrícolas do Mercosul entrará na União Europeia sem tarifas ou cotas, com poucas exceções. O setor conta com um documento de salvaguardas aprovado pelos governos em paralelo ao acordo — UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se as importações crescerem acima de limites definidos e se preços ficarem muito abaixo do mercado europeu. Vale lembrar que trabalhadores do setor agrícola europeu pressionaram seus governos, no fim do ano passado, pela adoção dessas medidas protetivas.
Serviços
O acordo facilitará a participação de empresas europeias em licitações públicas, além da prestação de serviços financeiros, logísticos e digitais entre os dois blocos. Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE.
De olho no meio ambiente
O texto inclui a reafirmação dos compromissos ambientais relativos ao Acordo de Paris sobre o clima.
Quem ganha e quem perde
Análises do setor econômico apontam que a exportação agrícola do Mercosul é a grande vencedor do acordo. Por outro lado, ao menos na Argentina, um dos setores mais sensíveis é a indústria automobilística, devido à eliminação da tarifa de 35% sobre os veículos europeus. Outros segmentos impactados incluem a metalurgia, o setor têxtil, de calçados e de produtos químicos.
Multilateralismo
Analistas apontam que o acordo é uma parceria estratégica com consequências geopolíticas importantes em um momento de tensões com os Estados Unidos. Para o Mercosul, a medida abre uma porta comercial que permite diversificar as exportações para além da China.


