
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Portugal vai às urnas neste domingo (18) com um recorde de 11 candidatos. A imprevisibilidade do pleito deve levar a disputa ao segundo turno — três aparecem mais bem colocados e em situação de possível empate técnico: dois de direita ou centro-direita e apenas um de esquerda —, mas o ponto que exige maior atenção deste lado do Atlântico é o impacto sobre a comunidade brasileira em solo lusitano.
Atualmente, os brasileiros formam a maior comunidade estrangeira em Portugal. Dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) indicam que o número de residentes com título válido ultrapassou a marca de 485 mil ao final de 2025.
Há mais de um ano, esses cidadãos enfrentam uma crescente onda de discursos anti-imigração. Até meados de 2024, era possível entrar no país como turista e iniciar o processo de legalização por meio da "Manifestação de Interesse". Contudo, as regras endureceram em 2025: agora, é obrigatório sair do Brasil com o visto adequado (trabalho, procura de trabalho ou estudo), solicitado via consulado.
Além da mudança na lei, outros fatores geram apreensão: a crise de habitação, com aluguéis em níveis históricos; entraves burocráticos na renovação de títulos; e, principalmente, a ascensão da direita radical, que colocou o discurso anti-imigração no centro do debate político. É nesse cenário que as eleições se inserem, com a predominância de candidatos conservadores e que podem endurecer as legislações migratórias em território português.
Eleições de 2026
Entre os principais nomes está André Ventura, líder do Chega. O ex-comentarista esportivo de 42 anos consolidou seu partido como a segunda maior força parlamentar em 2025, com uma plataforma focada no combate à corrupção e restrição à imigração. Em setembro passado, Ventura causou polêmica ao elogiar ações de "caçada a imigrantes" na Espanha.
No campo da centro-direita, João Cotrim de Figueiredo, de 64 anos e membro do Parlamento Europeu pela Iniciativa Liberal, defende o corte de impostos e a flexibilização trabalhista. Já no espectro da esquerda, António José Seguro, ex-líder do Partido Socialista, retorna ao protagonismo após anos de afastamento da política ativa.
Sondagens divulgadas pelo jornal Público apontam que Ventura tem 80% de probabilidade de chegar ao segundo turno, marcado para 8 de fevereiro, seguido por Seguro (54%) e Cotrim (20%). Caso se confirme, esta será a primeira vez em quatro décadas que uma eleição presidencial portuguesa não é decidida na primeira volta.
Embora a presidência em Portugal seja um cargo majoritariamente cerimonial, o ocupante detém o "poder moderador": pode dissolver o Parlamento, destituir o governo e vetar legislações em momentos de crise.




