
Homeland é como os americanos se referem à pátria. Não é apenas o país, mas a terra natal, o lugar de pertencimento, o espaço que deveria oferecer proteção. A palavra ganhou peso depois que o território continental dos Estados Unidos foi atacado pela primeira vez, em 11 de setembro de 2001. Não por acaso, "Homeland" também dá nome a uma das séries mais contundentes já produzidas sobre a chamada Guerra ao Terror.
Foi no rastro dos atentados a Nova York e Washington que o governo de George W. Bush criou o Department of Homeland Security (DHS). Houve relatos de caçadas internas, com muçulmanos tratados como suspeitos automáticos, como se todo imigrante de origem árabe fosse um terrorista em potencial. Injustiças foram cometidas. Pessoas foram presas e deportadas sob a lógica do preconceito travestido de segurança nacional.
Ainda assim, nada se compara ao que ocorre agora, na era Donald Trump 2.0. O ICE (Immigration and Customs Enforcement), um dos braços do DHS, tornou-se símbolo dessa escalada. No sábado, seus agentes estiveram envolvidos na morte de Alex Pretti, um enfermeiro de 37 anos que participava de um protesto em Minneapolis contra as ações do governo. Seu celular teria sido “confundido” com uma arma. Também foram agentes do ICE que retiraram à força de dentro do carro dos pais uma criança de cinco anos, Liam Canejo Ramos, na região metropolitana da cidade. Antes, Renee Nicole Good, americana de 37 anos, foi morta à queima-roupa dentro do próprio veículo, também em Minneapolis.
Em teoria, o ICE existe para combater o crime organizado e o terrorismo. Na prática, a agência passou a operar como uma máquina de perseguição indiscriminada a qualquer pessoa que pareça um imigrante ilegal. A meta oficial do governo: mil deportações por dia. O ICE é peça central dessa engrenagem.
Para cumprir o objetivo, a agência passou a atuar acima da lei, atropelando inclusive a 4ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, um dos pilares das liberdades civis do país: nenhuma força policial pode invadir residências ou empresas sem mandado judicial. Ainda assim, agentes do ICE atuam de rosto coberto, sem identificação visível. São exaltados por Trump como “verdadeiros patriotas”. O contingente quase dobrou em um ano, saltando de cerca de 10 mil para 22 mil agentes, muitos deles treinados às pressas — ou doutrinados — para ocupar as ruas o quanto antes.
Minnesota transformou-se no laboratório dessas ações. Não por acaso. O Estado é governado por Tim Walz, adversário político direto de Trump e candidato a vice-presidente na chapa de Kamala Harris em 2024. Também foi em Minnesota que George Floyd foi asfixiado até a morte por um policial em 2020, episódio que detonou protestos históricos e deu dimensão global ao movimento Black Lives Matter.
Talvez Trump esteja subestimando Minnesota e sua capacidade de fazer o que ocorre ali se irradiar pela homeland inteira.




