
Sejamos claros: não existe "ditadura light". Mas é o que, a princípio, os Estados Unidos estão aplicando à Venezuela. Ou, em outras palavras, uma ditadura que seja leal aos interesses do governo Donald Trump — leia-se aberta às empresas dos EUA, em especial do setor petrolífero.
Porque, grosso modo, a situação atual resume-se a dois cenários: Nicolás Maduro foi capturado na ação militar de sábado, levado para os Estados Unidos, onde será julgado e pode ser condenado à prisão perpétua. É carta fora do baralho. Na Venezuela, o núcleo duro da ditadura segue firme, com a vice-presidente, Delcy Rodrigues, tendo assumido o governo, mantendo a máquina repressora, representada por Padriño Lopez, ministro da Defesa, e Diosdado Cabello, do Interior, no poder.
Muda para não mudar. Ou, melhor dizendo, há, ao menos para público interno, a continuidade da estrutura de poder. Até para que não ocorra o que vimos no Iraque: o esfacelamento do establishment militar levou à guerra civil e deu origem, inclusive, a organizações terroristas.
A Constituição bolivariana diz que, na ausência temporária do presidente, quem assume, por 90 dias (prorrogáveis por mais 90) é a vice. Em caso de ausência definitiva, por incapacidade física e mental, morte e destituição, novas eleições devem ser convocadas em 30 dias.
Os EUA descartaram eleições a curto prazo, e o fato de Delcy Rodrigues ter sido empossada indica que a Venezuela está entendendo que a ausência de Maduro é temporária. Ou, ao menos, essa pode ser uma estratégia tanto do governo interino, tutelado por Trump, para ganhar tempo.
Os dois, então, estariam atuando em conjunto, apesar dos arroubos dos maduristas que ficaram em Caracas, que falam em "sequestro do presidente" e "resistência"? Sim, é possível. O acerto pode ser o governo Trump tolerar a manutenção desse discurso revolucionário, entendendo-o como um mal necessário, para uma transição menos turbulenta — já que a ocupação com tropas no terreno é descartada.
Não à toa Delcy tem sido vista, por alguns setores do chavismo, como "traidora". Sabe-se que a então vice vinha se preparando para uma mudança radical do sistema econômico do país, conversando, junto com o irmão, Jorge Rodrigues, presidente da Assembleia Nacional, com empresários estrangeiros. Delcy, embora truculenta como Maduro, é conhecida pelo perfil pragmático. Tanto que, como responsável pela área econômica, ela comandou o abandono do controle de preços, do câmbio, o que levou a uma dolarização informal.
Segundo o jornal The New York Times, semanas antes da operação que resultou na captura do presidente venezuelano, autoridades dos EUA já haviam decidido que o nome de Rodríguez seria "aceitável", ao menos temporariamente. Na segunda-feira (5), Trump disse que as conversas entre o secretário de Estado, Marco Rúbio, e Delcy são constantes — e em "espanhol fluente".





