
O presidente Lula sempre almejou projeção internacional. Foi muito em nome dessa ambição que o Brasil participou da missão de paz da ONU no Haiti por 13 anos — boa parte durante seus dois primeiros mandatos na presidência.
Também foi em nome desse desejo que foram cometidos alguns excessos de voluntarismo no cenário internacional. O mais conhecido deles o Acordo de Teerã, cuja ideia, para resolver o impasse nuclear, até era boa, mas o Brasil acabou atropelado pelos interesses das grandes potências. Foi uma aula de real politik.
A um primeiro olhar, o convite de Donald Trump para integrar o chamado "Conselho da Paz" é sedutor. Mas é hora de Lula colocar os dois pés no chão e ouvir quem realmente entende de política externa — a competente diplomacia brasileira.
Rejeitar o convite não significará abster-se do jogo global. Ao contrário, é compreender o que está por trás do "canto da sereia". Tal conselho, mais parecido com um clube privativo, é uma ideia estapafúrdia que rivaliza com os princípios basilares da Casa de Rio Branco, entre eles o pragmatismo, a defesa da não intervenção e o multilateralismo.
Os interesses brasileiros devem estar acima de alinhamentos automáticos e ideológicos; o Brasil reconhece o Direito Internacional, que veda aos Estados interferir nos assuntos internos ou externos de outros, protegendo a soberania e autonomia de cada nação em gerir sua política e interesses; e, ato contínuo, entende que cooperação é o melhor caminho para alcançar objetivos comuns, baseada em princípios de inclusão, igualdade e responsabilidade compartilhada para enfrentar desafios globais como mudanças climáticas, paz e segurança.
Até como um dos pais fundadores da ONU, com a participação decisiva do gaúcho Osvaldo Aranha, o Brasil tem obrigação moral de rejeitar o convite de Trump, cujo objetivo é enterrar a própria organização.




