
Há um constrangedor silêncio das autoridades brasileiras — em nível federal (incluindo Forças Armadas), estadual (em Roraima) e municipal (em Pacaraima) - sobre a crise na Venezuela.
Em Brasília, o dilema do governo Lula (PT), sempre tão vocal em seu afã de se tornar um ator geopolítico, é guiado pelo receio de não desagradar Donald Trump, ainda em meio às negociações sobre o tarifaço, e, ao mesmo tempo, defender a "soberania dos povos" e criticar o precedente aberto pela ação de sábado para uma era de instabilidade na América do Sul.
Lula demorou demais para mudar o tom com Nicolás Maduro. Foi só quando a eleição de 2024 escancarou demais a farsa é que passou a criticar o reino madurista. Antes, chegou a dizer, quando perguntei ao vivo na Rádio Gaúcha por que da dificuldade de considerar a Venezuela uma ditadura, que naquele país "havia mais democracia do que no Brasil".
Essa cautela tem respingado na fronteira entre Brasil e Venezuela. O Exército, que participa da Operação Acolhida, com 270 militares de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, também mantém silêncio a fim de evitar que uma palavra mal colocada possa comprometer as relações externas.
Assim, não permite entrevista de seus soldados e oficiais sequer sobre o assunto que mais entende em Roraima, a bonita Operação Acolhida. Todos os pedidos são endereçados à Casa Civil (e não ao Comando do Exército ou Ministério da Defesa), que não responde às solicitações.
Na segunda-feira (5), quando os quatro generais inspecionaram a fronteira — Luiz Gonzaga Viana Filho, comandante do Comando Militar da Amazônia (CMS), José Luís Araújo dos Santos, comandante da Força-Tarefa Logística Humanitária Operação Acolhida, Cláudio Henrique da Silva Plácido, subcomandante do Comando Operacional Conjunto Catrimani II, e Roberto Pereira Angrizani, comandante da 1º Brigada de Infantaria de Selva —, apenas um dos oficiais conversou com a imprensa.
Coube ao general Angrizani explicar as ações de defesa do território nacional, diante de jornalistas bem orientados a não perguntar sobre temas relacionados à Venezuela.
Os demais generais entraram em viaturas e retornaram aos quartéis.
Essa centralização de informações no Planalto se deve, claro, à sensibilidade do tema. Assessores palacianos afirmam, nos bastidores, que há receio de que o tema seja instrumentalizado eleitoralmente contra Lula. Há, no meio diplomático, também o entendimento de que a ação americana na Venezuela, que visa o petróleo, pode ser estendida, no futuro para abocanhar minerais críticos. E aí o Brasil poderia ser um alvo da ambição da Casa Branca.
Em nível municipal, a coluna esteve nesta quarta-feira (7) na prefeitura de Pacaraima, município na fronteira com a Venezuela, para ouvir o que o Executivo municipal pensa da crise. Afinal, a cidade recebe centenas de refugiados venezuelanos diariamente e tem uma vida intimamente ligada à força de trabalho desses cidadãos. Fomos informados de que o prefeito Waldery D'Ávila (Progressistas) está de férias. Em contato por mensagem, o vice-prefeito, Vagner da Patrol (Republicanos), disse apenas que não poderia dar entrevista porque estava "saindo para uma aldeia indígena". Diante da insistência de uma conversa por telefone, não respondeu mais às mensagens.
Em Boa Vista, o governador de Roraima Antonio Denarium (Progresissta) também está em férias.




