
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Morando no Brasil há oito anos, o analista político venezuelano Carlos José León acompanha com atenção o cenário na Venezuela após o ataque dos Estados Unidos e a captura do ex-presidente Nicolás Maduro.
A coluna conversou com León sobre a situação do país, sobre a presidente interina Delcy Rodríguez e sobre um possível acordo do regime chavista com o governo americano.

Como você avalia o atual cenário da Venezuela?
Minha avaliação é que a saída de Maduro do comando é um primeiro passo contundente e importante. Sei que há muita preocupação quanto à continuidade do regime, pois houve apenas uma mudança de chefia, mas minhas primeiras impressões são positivas. Ficou evidente que o regime não é perpétuo e que pode ser fraturado. Foi uma demonstração de força que ocorreu, infelizmente, por meio de uma ação questionável por muitos à luz do direito internacional. Entretanto, o próprio direito internacional estabelece premissas sobre o comportamento dos Estados. A Venezuela é um Estado que sequestrou suas instituições e poderes políticos para perseguir dissidentes e cometer violações de direitos humanos e crimes contra a humanidade. Existe, inclusive, um processo aberto no Tribunal Penal Internacional, e Nicolás Maduro deve responder por crimes cometidos sob suas ordens diretas. Como Estado, o Brasil tentou ajudar pacificamente nas negociações de Barbados em 2023, buscando que a Venezuela retomasse a normalidade democrática. Vale lembrar que, em 2011, a Venezuela iniciou o processo de saída do Conselho Interamericano de Direitos Humanos. Ou seja, o país abandonou o comportamento regular de um Estado e passou a atuar como uma estrutura que ameaçava as próprias democracias da região. Minhas impressões são positivas porque mostram que, apesar de tudo, a justiça pode prevalecer. Veremos nos próximos dias quais negociações Maduro terá de fazer para não cair sozinho e se ele se manterá como um "revolucionário" até o fim ou se mostrará sua verdadeira face.
Qual a sua avaliação sobre Delcy Rodríguez?
Ela possui uma trajetória extensa dentro do chavismo, tendo sido ministra de Hugo Chávez. Muitos desses nomes têm carreiras longas porque alternaram entre cargos eletivos e postos de confiança, como ministérios e vice-ministérios. O campo de influência de Delcy no chavismo é longo. Diz-se que sua lealdade a Maduro se potencializou porque foi ele quem a resgatou após Chávez tê-la deixado em cargos menores. Quem também possui grande influência e a trouxe de volta para o círculo de Maduro foi seu irmão, Jorge Rodríguez, atual presidente do Congresso. Essa trajetória permitiu que ela integrasse o círculo central de poder e chegasse à vice-presidência. Vale lembrar que, na Venezuela, o vice-presidente é nomeado pelo presidente, e não eleito por voto popular como no Brasil; o governante pode, inclusive, trocar o ocupante do cargo a qualquer momento. Contudo, meses atrás, circulou a informação de que os irmãos Rodríguez teriam tentado enviar a Donald Trump, por meio de intermediários em um país árabe, uma proposta de um "chavismo sem Maduro". O fato de estarmos vivendo o cenário atual reforça a possibilidade de que essa lealdade tenha se deteriorado nos últimos anos.
Você acredita que ocorreu um acordo para a captura de Maduro e uma tentativa de transição?
O objetivo era retirar Maduro do poder e retirá-lo vivo, e foi o que aconteceu. O próprio filho de Maduro afirmou em uma transmissão ao vivo, no domingo, que iria "atrás dos traidores". "Vamos ir atrás dos culpados", se acusa os Estados Unidos, agora falar em traidores você está falando das fileiras do próprio chavismo. Para alguém trair o Maduro nesse ponto tem que ser alguém acima dessa estrutura política não pode ser um militar pequeno. Um dado relevante: entre os mortos, constam 32 militares cubanos. Embora o governo venezuelano não tenha divulgado o balanço oficial de vítimas civis e militares nacionais, o fato de que quase 50% dos cerca de 80 mortos estimados sejam cubanos diz muito. Isso sugere que houve, de fato, um vazamento interno de informações sobre a localização exata de Maduro.
Você disse que para "trair Maduro" seria necessário alguém de alta relevância. Delcy Rodríguez, Diosdado Cabello e Vladimir Padrino têm mais relevância que Maduro dentro do chavismo?
Tem. A prova disso é que o círculo de segurança pessoal de Maduro era composto por cubanos, o próprio regime de Cuba confirmou a morte desses militares. Há anos denuncia-se a ingerência cubana na Venezuela. Assim como Maduro tinha essa guarda estrangeira, outros líderes como Diosdado Cabello, Delcy Rodríguez, Cília Flores e o próprio Tareck El Aissami, hoje preso, também possuíam círculos de segurança não venezuelanos, trazidos da Rússia ou do Irã.
Delcy seguiria os ideais do chavismo intensamente ou seria mais maleável?
É interessante fazer um paralelo com a China. Entre os anos 1960 e 1970, durante a Guerra Fria, Deng Xiaoping (ex-presidente chinês) entendeu que o sistema econômico chinês precisava de ajustes, porque eles estavam matando as pessoas de fome. Foi o início da abertura ao capitalismo moderno. A abertura econômica (atual da Venezuela) permitiria o retorno de empresas estrangeiras, muitas expulsas por Chávez, e o trabalho conjunto com os EUA para legitimar recursos acumulados ao longo dos anos. Eles poderiam até financiar empresas próprias para investir no país. Portanto, acredito que seriam mais abertos economicamente; ideologicamente, o vínculo ainda existe, mas não me parece tão forte quanto o interesse econômico em tirar vantagem da situação.
Ao que devemos ficar atentos daqui para frente?
Devemos acompanhar a situação da população civil. Quando um regime se sente encurralado e vulnerável, especialmente após perder não apenas um general, mas a sua "cabeça", a tendência é haver retaliações. Jornalistas já foram presos, mas e os casos que não chegam à mídia? Como ficarão as regiões do interior, onde o regime controlava a distribuição de alimentos e gás? O governo manterá a assistência ou priorizará apenas Caracas para garantir a lealdade de grupos armados na capital? É um cenário perigoso. A estrutura criminal na Venezuela se apoderou de todos os poderes institucionais. Há milhões de pessoas coniventes que ganham com esse sistema. Estruturas como os "conselhos comunais" recebem verbas diretas para instilar medo nas comunidades.
O que seus familiares na Venezuela relatam?
A percepção deles, tanto no interior quanto na capital, é de uma tentativa de manter a rotina, mas com muita preocupação. O deslocamento é difícil: trajetos de duas ou três horas passam por diversas bases militares sob rígido controle. Há o medo de novos tiroteios, como os que ocorreram perto das bases do regime, que podem atingir civis inocentes. Além disso, há o problema do abastecimento e da inflação. O dólar está escasseando e ficando mais caro. Em muitas áreas do interior, não há máquinas de cartão funcionando; se um cartão é bloqueado, o cidadão precisa viajar horas até Caracas para resolver. Se for um final de semana, a espera dura até segunda-feira. Soma-se a isso o custo crescente da gasolina e da água filtrada, itens que encarecem rapidamente nesses cenários de crise.
Há manifestações a favor da ação estrangeira ou elas estão sendo reprimidas?
Não haverá manifestações favoráveis. Já foi publicado na Gaceta Oficial (o Diário Oficial da Venezuela) um decreto cujo Artigo 5º ordena que as forças policiais e militares busquem aqueles que promovam ou se manifestem a favor da intervenção que resultou na extração de Maduro. Está claro que qualquer um que se manifeste — seja nas ruas, redes sociais ou WhatsApp, pagará caro. Essa é a realidade atual que precisamos informar.





