
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Após o ataque dos Estados Unidos ao território venezuelano e a captura de Nicolás Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina do país nesta segunda-feira (5).
Com longa trajetória política nas fileiras do chavismo, ela integra o governo venezuelano desde a era Hugo Chávez, tendo ocupado diversos cargos estratégicos de gestão.

Sobre a relevância e o perfil político de Delcy, a coluna conversou com o professor de Ciência Política da Universidade Central da Venezuela Carlos Romero, que conheceu a hoje presidente:
Há informações de que Delcy Rodríguez seria muito leal a Maduro. Quais as suas percepções?
Há muito tempo, ela vem escalando posições dentro do governo. A essa altura, já tinha sido ministra das Relações Exteriores, das Comunicações e esteve no serviço diplomático no início do chavismo. Ou seja, é uma pessoa muito conhecida na elite chavista e governante, de tal maneira que não é uma recém-chegada, não surgiu de repente. Ao contrário, vinha colaborando com o governo em duas áreas muito importantes. Na área internacional, esteve muito envolvida nos temas do Mercosul, quando a Venezuela foi expulsa do bloco, com questão de Essequibo, a disputa fronteiriça com a Guiana. Por outro lado, ela cultivou relações com empresários privados, tanto estrangeiros quanto nacionais, que sempre consideraram que ela tinha bom senso para conduzir temas dentro da agenda pública e governamental. Dessa forma, para muitos setores econômicos, sociais e trabalhistas, ela é considerada uma garantia de que se possa levar adiante as negociações com os Estados Unidos sobre o desmonte do Estado chavista no que tem sido chamado de transição. Não esqueçamos que as transições são caras e, em muitas ocasiões, formadas por líderes políticos que vêm do regime que sai e que entra. Por exemplo, Pinochet (Augusto Pinochet, ex-ditador do Chile. Foi uma transição muito forte. Pinochet permaneceu como comandante-geral do exército por alguns anos, e um grupo de senadores foi composto por pessoas ligadas a ele, indicadas "a dedo", sem eleições. Ou seja, uma espécie de patrimonialismo por parte de Pinochet. Então, aqui, na Venezuela, estou seguro de que os Estados Unidos pensaram em Delcy Rodríguez como um símbolo dessa transição.
O New York Times publicou uma notícia indicando que, há semanas, o governo de Donald Trump teria decidido que Delcy poderia suceder Maduro. Está se falando disso na Venezuela?
Está se falando muito e está se recordando uma nota da Reuters de aproximadamente dois meses atrás, que dizia que Delcy Rodríguez teve contato com funcionários americanos no Catar, e que um dos elementos fundamentais (da conversa) era a sucessão de Maduro. É claro que essa nota, naquele momento, foi vista como piada ou boato, mas a realidade nos mostrou que, efetivamente, a maioria dos funcionários dos Estados Unidos guardou a carta da Delcy. Porque não foi algo tirado do nada, ela ocupava a vice-presidência e, constitucionalmente, seria a pessoa que substitui o presidente nesses casos. Vejam que Maduro era vice-presidente quando Chávez faleceu, não é a primeira vez que essa consideração ocorre. Agora, quis-se comparar Delcy Rodríguez com María Corina Machado (líder da oposição e Prêmio Nobel da Paz), imaginando que ela pretenderia chegar ao poder de imediato com base na tese da vitória de Edmundo González em 28 de julho de 2024. Mas creio que não é assim. Acredito que as circunstâncias mudaram, e os Estados Unidos pensam que não devem cometer o erro de desmantelar o Estado na Venezuela, coisa que fizeram no Iraque, na Líbia e no Afeganistão, e que trouxe muitos problemas. Em vez disso, mantiveram e apoiaram o ditador egípcio, que demonstrou ter poder suficiente para conduzir a transferência de poder no Egito (Abdul Fatah al-Sisi), o que não ocorreu totalmente porque ele se intitulou sucessor até 2036. A história da Líbia e da Síria nos demonstra que os Estados Unidos preferem manter o Estado chavista aos poucos. É isso que se observa neste momento.
Há alguma característica que a distinga de Maduro?
Sim, e é muito importante. Eu a conheci (superficialmente) quando ela estava na Faculdade de Direito da Universidade Central. É uma mulher muito inteligente. Não gostaria de compará-la com Maduro porque é feio "chutar" uma pessoa quando ela está em desgraça. Mas, repito: primeiro, é uma mulher muito inteligente e muito simpática; segundo, cultivou fatores de poder: a Igreja, as forças armadas, a economia privada. Ela sempre esteve atenta a esses setores, coisa que Maduro não o fez. Maduro sempre se comportou como um líder partidário, não como um líder da nação.
E ela teria o apoio do restante governo e da população para seguir como presidente?
Bom, isso já é outro tema e é mais difícil de comentar. Porque, até agora, a reação popular dos chavistas tem sido muito tímida. Não se pode dizer que exista um movimento a favor dela, mas também não se pode dizer que exista um movimento contra. São dias difíceis, e é muito árduo vaticinar que haverá um apoio. Porque, assim como eu disse que Maduro era um líder partidário, ela também carece de uma liderança partidária dentro das fileiras do chavismo. Então, ela tem de buscar coalizões e alianças com personagens como Diosdado Cabello, que são básicos e importantes quanto ao partido e à militância. Ele ainda é grande, pois as pesquisas dizem que o chavismo ainda, com todos os problemas que houve, conserva 30% da votação e da simpatia política venezuelana.
A estrutura do governo segue as ideias do chavismo ou não?
Depende muito de como vão dirigir. Há três temas básicos. Direitos humanos: a quantidade de presos, injustamente, sobretudo na esfera política. Temos professores e estudantes que estão há mais de um ano detidos sem julgamento. Os direitos humanos são primordiais. Em segundo lugar, o tema econômico: medidas que sirvam para levantar a economia venezuelana, que está muito mal, especialmente em matéria inflacionária. E, em terceiro lugar, algo muito importante que não foi dito nestes dias: recolocar a Venezuela no contexto internacional. Maduro não estava apenas encurralado pelos Estados Unidos, estava encurralado também por muitos países da América Latina e da Europa, ou enfrentando posições tímidas, como a do Brasil. Dessa maneira, ela tem esses três grandes desafios para começar.



