
Foram tantos anos de idas e vindas, frustrações acumuladas e esperanças desfeitas que o acordo Mercosul-União Europeia, que, finalmente, sairá do papel neste sábado (17) parece pertencer a outro tempo.
Era um mundo recém-saído da Guerra Fria, em que o liberalismo parecia ter superado muros, e a humanidade caminhava para a cooperação internacional. Aliás, na gênese, o Mercosul foi uma emulação da grande-irmã, a União Europeia, o suprassumo da livre-circulação de pessoas, bens e capitais. Nesse mundo hipotético, Porto Alegre era até sonhada como capital dessa agremiação nascente no Cone Sul da América Latina.
Mas então caímos na real: instabilidades políticas, polarização, divergências ideológicas e ditaduras quase inviabilizaram o bloco. O Mercosul morreu e renasceu algumas vezes.
Já o acordo com a UE quase naufragou por conta de questões agrícolas e ao protecionismo europeu. O diálogo foi retomado em meados da década de 2010 e União Europeia e Mercosul anunciaram a conclusão técnica em 2019. A permanência de desacordos quanto a exigências ambientais, no entanto, seguiu travando a assinatura.
Esse impasse foi resolvido no âmbito técnico entre 2023 e 2024, quando os negociadores dos blocos enfim fecharam o texto e ambiente saiu da seara comercial e passou para a arena da cooperação.
O que você verá por aí serão interpretações de ganhos econômicos para um e outro lado, mas é hora também de valorizar o aspecto político. Em um Mercosul que amarra Lula e Javier Milei na mesma fotografia, em um mundo com Donald Trump, de guerras, de imposição de tarifas, de ações militares unilaterais, e no qual a Otan está prestes a ser implodida, o acordo é uma nesga de cooperação, quiçá uma ponta de otimismo nas relações internacionais, e, sem dúvidas, o último suspiro do multilateralismo.






