
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, completa, nesta terça-feira (20), um ano deste segundo mandato na Casa Branca. A coluna conversou com Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres (1994-1999) e em Washington (1999-2004).
Que balanço o senhor faz deste primeiro ano do segundo mandato?
(Houve) Uma série de iniciativas que transformaram o mundo. Há muitos estudos sobre as personalidades das pessoas na História. Acho que Trump vai entrar para a história nessa categoria. Ele unilateralmente, com a única vontade dele, transformou as relações internacionais, terminou com o multilateralismo, afundou as Nações Unidas, e, para coroar esse primeiro ano, ele propôs esse Conselho da Paz (para Gaza), uma iniciativa exótica, porque havia uma resolução da ONU prevendo a criação desse conselho da paz para tratar de Gaza, mas ele criou um conselho da paz para cuidar do mundo inteiro, sob a presidência dele. Esse primeiro ano foi surpreendente em termos de relações internacionais, porque nenhum presidente na história teve esse tipo de ação.
O governo Trump tem como base eleitoral o movimento "Make America Great Again", o MAGA. Mas vemos Trump olhando muito para fora. "Fazer os Estados Unidos grandes de novo", para esse público, pode significar ser o xerife do mundo?
Ele prometeu muito do que ele está fazendo durante a campanha. O tarifaço, acabar com as guerras... Do jeito dele, com a imprevisibilidade dele, está criando mais incertezas do que soluções. Vocês estão vendo a disputa por causa da Groenlândia e a ameaça de uma guerra tarifária entre os EUA e a União Europeia. Acho que o pessoal dele, do movimento MAGA, está preocupado com a situação interna econômica, a inflação, os preços dos produtos. Não estão preocupados com o mundo. Essa série de iniciativas globais responde a uma visão estratégica de muitos dos assessores dele, que produziram um documento enorme, de onde estão saindo todas essas medidas, que é o relatório 2025. Está tudo previsto lá. Mas é uma iniciativa de assessores dele, fiéis a ele, com essa visão dos EUA em primeiro lugar. Os Estados Unidos em primeiro lugar significa muita coisa, inclusive isso que ele está fazendo, essa proposta do conselho da paz, que ele está propondo, presidindo e ditando as normas. Ele está cobrando US$ 1 bilhão para quem quiser participar e está definindo tudo contra as Nações Unidas. Ele virou um verdadeiro imperador do mundo, é inaceitável para os outros países.
O senhor falava sobre essa reorientação da presença militar dos Estados Unidos no mundo, ação mais intervencionista, que está no documento National Security Strategy. Alguém consegue parar Trump? E quanto que isso impacta na geopolítica?
Impacta muito, porque os Estados Unidos são a maior potência global, a maior potência militar, maior potência econômica, maior potência comercial, que tem, dentro da sua estratégia, o objetivo de conter a China. Tudo que está sendo feito é para conter a China. Trump está excluindo a China desse conselho, está propondo (anexar) a Groenlândia contra a China e a Rússia. Toda essa loucura tem uma lógica: manter os Estados Unidos com a hegemonia global, agora que essa hegemonia começa a ser disputada pelo crescimento da China em todos os continentes.
Que posição o Brasil deve adotar? Está mais difícil manter o pragmatismo, ficar em cima do muro?
O Brasil não tem alternativa. É uma potência média regional, com 210 milhões de habitantes, um território continental. O Brasil não pode se alinhar nem a um lado nem ao outro, nem ao lado americano, nem ao lado da Rússia. Esse acordo de livre-comércio com a União Europeia (Mercosul-UE) é uma importante decisão geopolítica depois de muitos anos de relutância, e mesmo do PT, que sempre se opôs. Do ponto de vista geopolítico, o acordo é importante, e o governo brasileiro fez bem em apoiar. Lula, inclusive, foi um dos que mais defendeu esse acordo agora, na reta final. Mais por razões geopolíticas do que econômicas. O Brasil tem de defender os seus interesses em primeiro lugar. Fazer como os Estados Unidos: em primeiro lugar, vem o interesse brasileiro, e não o interesse americano ou chinês. Temos de ser muito realistas, objetivos, e discutirmos a criação de uma estratégia. O Brasil, há muitos anos, não tem uma estratégia, um plano de voo, um projeto nacional. Com essas grandes transformações do mundo, temos de começar a pensar de maneira mais estratégica e não reativa, como nós fizemos nas últimas décadas.
Que tipo de estratégias? É o caso de investimento maior em defesa, submarino nuclear, todos aqueles investimentos que se fez ainda durante o regime militar com relação a energia nuclear, por exemplo?
Não devemos pensar em termos casuísticos. Temos de pensar no Brasil, qual é o interesse do país nesse mundo conturbado: de crescimento, de desenvolvimento, de segurança externa e interna. Temos de definir os objetivos. E, a partir deles, fazer o que precisa fazer. Por exemplo, se você define como objetivo nacional o crescimento, o desenvolvimento econômico, o governo teria de implementar uma série de reformas visando esse crescimento, esse desenvolvimento. Se o objetivo é a segurança nacional, temos de definir uma série de políticas que não estão sendo implementadas por falta de recursos, e o governo precisa ter a clareza de que não é uma situação em que o governo tem que reagir apenas. O governo tem de propor questões para resolver esses problemas. Estamos patinando com um crescimento de 1,5%. O ano passado foi de 3%, esse ano já vai ser menos de 2%. É um crescimento medíocre, que não vai levar o Brasil a lugar nenhum. O governo (apenas) reage a situações internas, agora estamos vendo-o paralisado por causa dessa discussão entre os Poderes: a corrupção, o aumento da criminalidade, da insegurança. Quais são as políticas que o governo está implementando para atender a essas necessidades. Não é uma questão de definir políticas muito específicas, é uma decisão do governo de ter uma visão mais ampla, de médio e longo prazo, e, para isso, definir as prioridades, em primeiro lugar, por colocar a casa em ordem. Estamos com uma crise econômica que vai acontecer mais na frente. Hoje, ainda estamos vendo os sinais, mas vai acabar acontecendo, se medidas fortes de contenção de despesas, de austeridade fiscal, não forem tomadas. E isso a gente não está vendo acontecer. Precisamos de uma estratégia de médio e longo prazos, não uma estratégia para esse ano eleitoral.
Voltando à questão geopolítica: a Liga das Nações não resolveu o problema da guerra. Houve a Segunda Guerra Mundial, a criação das Nações Unidas e um período relativamente longo de paz. Será preciso uma grande tragédia para que sejam revistas as regras internacionais?
O que saiu depois da grande guerra, em 1945, em termos de instituições internacionais foi inspirado e apoiado pelos Estados Unidos: as Nações Unidas, o GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio), depois sucedido pela Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial. Isso tudo foi uma criação apoiada e influenciada pelos EUA. Os Estados Unidos estão destruindo tudo isso. Esse é o problema. Sem querer colocar nada no lugar. Prevalecerá a vontade dos Estados Unidos. Essa proposta do conselho de paz é um exemplo disso. Como é que você pode propor uma organização chefiada pelo presidente dos Estados Unidos a qual todos os outros presidentes ficariam subordinados a ele. O mundo que está sendo configurado hoje é totalmente diferente daquele que emergiu depois da grande guerra. E é um mundo com incertezas, porque quem está promovendo a destruição das organizações internacionais, do multilateralismo, é o país mais potente do mundo, aquele que ajudou a criar essas instituições. Depois que o Trump se for, por algum tempo, vamos ter uma situação muito instável nas relações internacionais, porque o que o Trump está fazendo é destruir todas as relações que emergiram depois da guerra, inclusive, em termos de alianças. Está ocorrendo uma reversão: os Estados Unidos apoiando a Rússia e criticando e penalizando a União Europeia, colocando a doutrina Monroe aqui no continente. Tudo isso é uma novidade, que vamos levar tempo para se ajustar e a qual não sabemos aonde vai levar.
Como a imprevisibilidade de Trump impacta o xadrez geopolítico?
Ele desorganizou tudo: a disputa com a União Europeia por causa da Groenlândia, esse conselho da paz e o que aconteceu na Venezuela. Tudo isso é impensável dentro das regras internacionais, do direito internacional, da Carta das Nações Unidas, que é o que prevalecia até 20 de janeiro do ano passado, quando o Trump tomou posse. Estamos justamente dentro de um cenário totalmente novo, imprevisível e, cada vez, mais unilateral, porque Trump está tomando essas medidas sem consideração com os outros países. Ele não tem limite. O limite é a vontade dele.
Ele vai realizar alguma ação contra a Groenlândia?
Militarmente não, mas acho que ele vai tentar pressionar a União Europeia. Ele não precisa fazer isso, porque as regras estabeleceram, desde a década de 1950, a Groenlândia como uma parte da Dinamarca, e os Estados Unidos com bases militares lá. Eles podem fazer tudo o que quiserem lá, combinado com a Dinamarca. Mas ele não quer. Não é apenas interesse geopolítico, mas também dos minérios, das riquezas que existem nessa maior ilha do mundo. Os objetivos não estão muito claros. Ele está insistindo na geopolítica, mas isso poderia ter sido resolvido, tranquilamente, pelos canais diplomáticos, sem fazer toda essa mudança, essa modificação no cenário internacional por causa das tarifas. Ele vai taxar 10%, depois 25%, e a União Europeia vai taxar US$ 93 bilhões em produtos americanos. Isso vai ter um impacto tremendo no comércio internacional.
Com as eleições de meio de mandato em vista, o senhor acredita que Trump pode, de alguma forma, mudar o seu modus operandi?
Se ele perder uma das Casas (do Congresso),vai ter muito problema na frente. As propostas que ele está fazendo são tão exóticas que já estão começando a despertar reação entre os republicanos. Vocês estão vendo a questão do ICE (em português, Serviço de Imigração e Alfândega), a polícia contra os imigrantes. Os republicanos já estão ficando contra. O Congresso já vai se mobilizar contra essa lei insurrecional. Ele (Trump) está muito preocupado, porque já está conversando sobre isso. Se eles não ganharem, há um risco grande de serem penalizados com impeachment. Ele mesmo falou isso. Não sei se vai chegar a esse extremo, mas o Congresso vai ter uma força muito maior para controlar essas medidas unilaterais. No fundo, o que ele está fazendo é o fortalecimento do Executivo contra o enfraquecimento do Judiciário e do Legislativo. Isso, antes do Trump, era impensável por causa do equilíbrio entre os Poderes. Hoje, você tem uma força muito grande do Executivo, mas acho que, em algum momento, o Congresso e o Judiciário vão reagir para controlar esse desmedido avanço nas atribuições dos outros Poderes dos Estados Unidos.






