
Historicamente, política externa — nem no Brasil, nem nos Estados Unidos — costuma ganhar votos. Mas pode, sim, ajudar a perdê-los. Em geral, funciona mais como fator de desgaste do que como ativo eleitoral. Na eleição presidencial deste ano, esse padrão tende a se repetir.
A oposição já ensaia explorar a política externa como flanco para tentar arranhar a imagem do presidente Lula em sua busca pela reeleição. O principal alvo é a Venezuela — mais especificamente, a relação próxima do Planalto com Nicolás Maduro. Trata-se de um tema sensível, ainda que difuso para parte do eleitorado. Conceitos como “violação do direito internacional” ou “legitimidade democrática” raramente mobilizam massas. Por isso, a crítica tende a ser simplificada: a de que o Brasil teria sido conivente com uma ditadura vizinha.

Do outro lado, o governo tentará neutralizar o ataque com uma narrativa mais palatável. Diante de um eleitorado que, como mostra a pesquisa Quaest, tem simpatia significativa pela ação armada americana, o Planalto deve sustentar que Donald Trump apenas “trocou seis por meia dúzia”: capturou Maduro, mas manteve de pé a estrutura autoritária do regime, agora sob tutela externa. Ainda assim, por precaução, a tendência é evitar o tema. Até porque 71% dos entrevistados no mesmo levantamento afirmam que a postura de Lula em relação à Venezuela não influencia seu voto.
A aposta da campanha deve ser, portanto, na agenda positiva da política externa — aquela que dialoga diretamente com bolso, emprego e estabilidade econômica. Em setembro, o governo brasileiro enfrentava pressão real: tarifas impostas a produtos nacionais e a ameaça de aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal. O cenário mudou. A sanção política foi descartada, e as tarifas comerciais entraram em negociação, com a perspectiva concreta de retirada de novos produtos da lista.
Além disso, outros temas de política externa serão explorados no debate eleitoral. O comércio internacional é um deles. A ampliação de mercados para o agronegócio, a reindustrialização via acordos comerciais e a tentativa de reposicionar o Brasil como fornecedor confiável em um mundo fragmentado são ativos potenciais. O acordo Mercosul–União Europeia pode voltar ao centro da campanha como símbolo de inserção global.
Outro eixo é o ambiental. A liderança brasileira nas negociações climáticas, o protagonismo na COP30 e a retomada da credibilidade internacional após anos de isolamento podem ser apresentados como vantagens estratégicas — sobretudo diante de um eleitorado urbano mais sensível à pauta ambiental e à imagem do país no exterior.
Há ainda a geopolítica propriamente dita. O discurso de não alinhamento automático, a tentativa de equilibrar relações entre Estados Unidos, Europa e China e o papel do Brasil como mediador em crises internacionais podem ser vendidos como maturidade diplomática - ou como ambivalência, aos olhos da oposição mais radical, que prefere uma política externa à imagem e semelhança do trumpismo.



