
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Há pelo menos duas semanas, uma onda de agitação tomou as ruas de mais de cem cidades no Irã.
Segundo a organização de direitos humanos americana HRANA (Human Rights Activists News Agency), os confrontos já resultaram na morte de mais de 500 pessoas e na prisão de outras 10 mil. Outras entidades apontam mais de 600 mortes.
O que desencadeou as manifestações?
O estopim dos protestos mais recentes ocorreu no fim de dezembro de 2025, quando lojistas e comerciantes de bazares em Teerã foram às ruas para protestar contra a inflação desenfreada — mais de 42% em dezembro. O movimento se espalhou rapidamente pelo país, transformando-se em manifestações contra o próprio regime iraniano, comandado pelos aiatolás, pedindo reformas políticas e do sistema judiciário e reivindicando maior liberdade da população.
Além da alta nos preços de produtos básicos, a situação foi agravada pela decisão do banco central de encerrar um programa que permitia a importadores acessar dólares americanos a um custo inferior ao do restante do mercado.
A situação econômica do Irã apresenta fragilidades há algum tempo, mas piorou drasticamente em 2025. Durante um conflito de 12 dias com Israel, a moeda local — o rial — despencou em relação ao dólar. Somente em 2025, o rial perdeu cerca de metade de seu valor, atingindo sua mínima histórica neste mês. Entretanto, o país também lida com dificuldades crônicas devido à reimposição de sanções econômicas pelos Estados Unidos.
Tensões Políticas
O contexto econômico soma-se a profundas tensões políticas. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã vive sob uma república teocrática — um regime no qual a autoridade máxima é o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que está no poder desde a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1989.
Nos atuais protestos, os manifestantes criticam abertamente a gestão de Khamenei. Com slogans como “Morte ao ditador” e “Iranianos, levantem suas vozes, gritem por seus direitos”, os participantes exigem a renúncia do líder.
O regime é alvo constante de críticas por violações de direitos humanos e restrições às liberdades sociais, especialmente entre mulheres e jovens — estes últimos têm liderado os levantes nos últimos anos.
Em 2020, por exemplo, o general Qassem Soleimani, então chefe de uma unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã e um dos homens mais poderosos do país, morreu em um ataque com drone dos Estados Unidos em Bagdá, no Iraque. Soleimani era apontado como o "cérebro" por trás da estratégia militar e geopolítica iraniana, além de ser muito próximo do aiatolá Khamenei.
Outra crise diz respeito à liberdade feminina, que enfrenta diversas limitações. Em setembro de 2022, Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, foi detida pela "Polícia da Moralidade" (frequentemente associada à estrutura da Guarda Revolucionária) por não usar "corretamente" o véu islâmico. Três dias depois, ela morreu em um hospital na capital. O Estado afirmou que a jovem sofreu um ataque cardíaco, mas sua família sustenta que a causa da morte foi espancamento. O caso deu início ao movimento "Mulher, Vida, Liberdade".
No ano passado, ocorreu um conflito de 12 dias entre Israel e Irã. A guerra começou quando Israel, em um ataque surpresa sem precedentes, bombardeou instalações nucleares em Natanz e Isfahan, prédios residenciais em Teerã, além de bases aéreas e de lançamento de mísseis em todo o país. A crise contou com a participação dos EUA, que bombardearam instalações de pesquisa nuclear em território iraniano, atingindo locais como a Usina de Fordow e o Centro de Tecnologia de Isfahan.
Outro fator que contribui para o descontentamento da população é a corrupção disseminada no governo. Embora Masoud Pezeshkian tenha sido eleito presidente em 2024, seus poderes são limitados, uma vez que Khamenei comanda todas as grandes questões de Estado.
Em paralelo às manifestações, o exilado Reza Pahlavi, filho do xá (antigo rei do Irã) deposto em 1979, segue conclamando os iranianos a permanecerem nas ruas, prometendo reassumir a liderança de uma nova fase do país em breve.
Linha do Tempo
- 28 de dezembro: início dos protestos atuais.
- 31 de dezembro: registrada a primeira morte. Um membro da força paramilitar Basij foi morto e outros 13 ficaram feridos quando os protestos se tornaram violentos em Kuhdasht, no oeste do país.
- 2 de janeiro (2026): o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alerta que seu país intervirá caso a matança de manifestantes continue.
- 4 de janeiro: o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declara apoio oficial aos manifestantes.
- 8 de janeiro (quinta-feira): autoridades cortam o acesso à internet e a linhas telefônicas, isolando o país do mundo exterior.
- 9 de janeiro (sexta-feira): o aiatolá Ali Khamenei afirma que o governo "não vai recuar", pede que Trump "foque em seu próprio país" e acusa os EUA de incitarem a desordem.
- 10 de janeiro (sábado): Trump ameaça atacar o Irã caso as forças de segurança respondam com força excessiva.
- 11 de janeiro (domingo): Trump afirmou que o Irã entrou em contato com os EUA e propôs negociar um acordo nuclear depois que o republicano ameaçou tomar medidas em resposta à repressão aos protestos no país.
- 11 de janeiro (domingo): o regime iraniano declarou três dias de luto nacional em homenagem aos membros das forças de segurança mortos.
As atuais manifestações são consideradas as maiores demonstrações de oposição ao governo iraniano desde 2009.






