
Haveria enormes implicações políticas de uma atitude como essa por parte do presidente Donald Trump — entre elas o esfacelamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) por um aliado e fundador. Mas do ponto de vista estritamente militar esse cenário já é imaginado por estrategistas. Doutor em Ciência Política, Fabrício Ávila, que preside o Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), fez um estudo que mostra os desafios de um conflito em ilha e em ambiente gelado, como o que ocorreu nas Malvinas, em 1982.
— Tanto a Groenlândia quanto as Malvinas são ilhas, um tipo de guerra exige uma força expedicionária. O problema: depois de 1991, a maioria das forças armadas do mundo perdeu essa capacidade. A guerra em ilhas é complicada, porque exige fracionar a tropa. Você não consegue levar uma divisão inteira. É uma guerra, em princípio, de batalhões. Isso ficou muito evidente nas Malvinas — afirma.
Ávila destaca um segundo desafio: a necessidade de operar em enormes distâncias enormes. Para tanto, ele traçou linhas em mapas: a base aérea americana de Eielson (Alasca, EUA) fica a 2.890 km de Thule (base americana na Groenlândia, hoje rebatizada como Base Espacial Pituffik). Já a base dinamarquesa de Aalborg fica a 3.200 km da estrutura do país no território, em Sondrestrom:
— Nas Malvinas, a marinha britânica operava a 12,7 mil quilômetros da metrópole. A própria Argentina teve dificuldades em operar nas Malvinas: a base aérea mais próxima ficava a 650 quilômetros, o que já demandava reabastecimento em voo, principalmente da aviação tática, que conduzia ataques tanto a navios como também realizava o suporte a tropas terrestres.
Uma comparação entre EUA e países europeus, os americanos teriam maior capacidade de entrega de tropas — e logística para manutenção. Porém, eles têm menos tropas adaptadas ao combate em regiões polares:
— Os alemães têm muitas tropas e, principalmente, os países nórdicos são totalmente adaptados a isso. Porém, têm menos capacidade de entrega estratégica e de reabastecimento em voo, o que pode comprometer o esforço deles.
O pesquisador salienta que a Guerra das Malvinas ocorreu entre abril e junho de 1982, outono no Hemisfério Sul, evitando o inverno (atual estação no Hemisfério Norte). que sugere, na opinião de Ávila, que uma ação americana pode ocorrer a partir de março (primavera naquela região).



