
“Se busca Edmundo González”. No lugar da placa de boas-vindas à Venezuela, esta é a frase — acompanhada de uma grande foto do candidato presidencial considerado pela comunidade internacional o vencedor das eleições de 2024 — que o visitante avista ao cruzar a alfândega do país atacado pelos Estados Unidos no sábado (3). Aqui, González, que vive no exílio, é “procurado”, como um criminoso. A placa, à direita de quem passa pela primeira barreira militar, reforça a percepção de que o ditador Nicolás Maduro pode ter sido capturado e levado para os Estados Unidos, mas a estrutura de poder do regime bolivariano, que persegue opositores e cala a imprensa, segue de pé.
Durante duas horas e seis minutos, entre 11h05min e 13h11min desta terça-feira (6), Zero Hora fez uma incursão pelo território do sul da Venezuela, agora sob o governo da presidente interina Delcy Rodríguez, sucessora de Maduro.
A reportagem percorreu os 16 quilômetros entre a fronteira com o Brasil, onde fica o município de Pacaraima, e Santa Elena de Uairén, ao longo da Troncal-10 (Rodovia 10). Foram três barreiras militares: a primeira, antes mesmo de se cruzar a aduana; a segunda, no pórtico; e a terceira — a mais tensa — em frente ao Forte Roraima, estrutura militar próxima do aeroporto local. Em todas, o procedimento é o mesmo: vidros abertos, olhares atentos. Entramos como turistas, a quem é dado o direito de permanecer no país por 90 dias. Evitamos falar com populares, a fim de não colocá-los em risco. Os nomes neste texto também foram trocados por questões de segurança.
Ataque à Venezuela
ZH fez o trajeto em um táxi guiado por Ramón, venezuelano que mora no Brasil, mas mantém propriedades em Santa Elena. Os militares observaram o interior do carro. Buscavam, basicamente, armas. Em nenhum momento, porém, pediram documentos ou revistaram o veículo.

À medida que o carro se aproxima de Santa Elena, veem-se motocicletas transportando todo tipo de produto: farinha, frango, botijão de gás. No caminho, há grandes hotéis — alguns antigos — que remetem à arquitetura colonial. Estão abertos o Gran Sabana, o Anaconda e o Garibaldi, este último no centro do município.
Com cerca de 30 mil habitantes, Santa Elena lembra uma típica cidade do interior de qualquer país latino-americano. Os símbolos nacionais estão por toda parte: na pequena praça com o busto de Francisco de Miranda ou na praça central, onde há uma majestosa estátua de corpo inteiro de Simón Bolívar, um dos Libertadores da América e herói do chavismo-madurismo.
O clima de tranquilidade destoa da tensão esperada em um país alvo da primeira ação armada dos EUA na América do Sul, que levou à captura de Maduro. Sob o sol forte destes dias, moradores estão sentados nos bancos da praça central, e o comércio está todo aberto. Ainda permanecem ali, no Dia de Reis, algumas decorações de Natal.
Há uma série de pequenos comércios, uma agência permanentemente fechada de um banco privado e um cinema desativado, com o sugestivo nome de Buena Broma ("boa piada", em tradução direta). Nas paredes, em grafite, a lembrança dos cem anos de Santa Elena: “Eu me alisto em defesa da pátria”.
Chamam a atenção grandes mercados, como o “El Gran Dragón Dorado”, de proprietários chineses. Na mesma quadra, Ramón aponta outros dois grandes estabelecimentos comerciais. Funcionam como pequenos atacados. De uns anos para cá, o investimento chinês contribuiu para reduzir a carência de alimentos, cuja venda antes era monopólio do Estado. Não há corrida em massa por comida, mas quem sai carrega sacos de farinha e galões de água em grande quantidade.
Na Calle Rosio, no entorno da praça central, um mercado de proprietários peruanos anuncia peixe: “Sí, hay tambaqui” (“Sim, há tambaqui”). Também há vagas de emprego para o caixa: “Se solicita cajera”. Lá dentro, pães à mostra em quantidade, prateleiras cheias de produtos de limpeza e higiene, e preços exibidos em reais. No caixa, aceita-se Pix.
Ao lado do mercado, a Padaria e Pastelaria Santa Nona, de donos árabes, tem algumas prateleiras vazias, mas o básico não falta. Nos fundos, há dezenas de sacos de farinha armazenados, em uma imagem que remete aos anos de hiperinflação no Brasil. Para ilustrar a desvalorização da moeda venezuelana, Ramón, o motorista, faz um câmbio rápido: troca R$ 5 por 500 bolívares.
— Até 2018, eu fazia o rancho do mês com esse valor — diz.
Hoje, não compra nem um saco de leite em pó da marca Mina Lac, que custa R$ 11 na padaria Santa Nona.

Se os mercados maiores pertencem a estrangeiros, aos venezuelanos cabe administrar pequenas lojas de tecidos, produtos eletrônicos ou trabalhar como ambulantes e mototaxistas.
Na cidade venezuelana, não se fala abertamente sobre política, sobretudo com estrangeiros. Na rodoviária, Juan, responsável pela cooperativa de táxi local, explica que, das 8h ao meio-dia, mais de 90 carros saíram de Santa Elena em direção a Pacaraima, para ingressar no Brasil. Foram contratados por pessoas que chegaram ao município vindas de cidades costeiras e da capital, consideradas potenciais alvos dos EUA. Ainda assim, Juan, gentil, faz o convite para conhecermos as belezas do país:
— Fazemos questão de que vocês venham, sejam bem atendidos e retornem.
É do alto de um morro que se observa Santa Elena por inteiro. Na terra indígena Pemón, de um lado avista-se um maciço, parte da cadeia de morros da qual o Monte Roraima, na tríplice fronteira Brasil–Venezuela–Guiana, é uma das atrações turísticas. Do outro lado, está a cidade. O silêncio impera.
Ramón alerta que recebeu em seu celular o decreto de estado de emergência (“estado de conmoción exterior”) declarado pelo regime venezuelano no sábado, mas publicado apenas na segunda-feira. O decreto se fundamenta no artigo 338 da Constituição venezuelana de 1999 e concede poderes extraordinários ao Executivo por 90 dias, prorrogáveis por igual período. A medida visa “proteger os direitos da população e o funcionamento pleno das instituições republicanas” e autoriza a mobilização da Fanb (Força Armada Nacional Bolivariana), a militarização de setores estratégicos, requisições de bens, restrições a manifestações e o fechamento de fronteiras. Este último ponto é o que mais preocupa.
Em Caracas, moradores relataram a presença de tanques da Guarda Nacional Bolivariana e controle rigoroso da mobilidade urbana. Em vários postos de controle, forças de segurança abordaram pedestres e motoristas, obrigando-os a sair dos veículos e revistando seus celulares. Outras cidades, como Maracaibo e Barquisimeto, também registraram maior presença policial, embora sem veículos blindados.
Pergunto se é hora de ir. Ramón esboça tranquilidade, mas iniciamos a descida. O retorno a Pacaraima leva cerca de 22 minutos — e, novamente, passamos pelas mesmas três barreiras militares. Antes de ingressarmos em território brasileiro, à direita, há a estrutura fechada de um antigo free shop.
Na segunda-feira, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa (SNTP) informou que 14 profissionais de mídia foram detidos e posteriormente liberados durante uma operação realizada enquanto a nova diretoria da Assembleia Nacional era empossada, nas proximidades do Palácio Legislativo, em Caracas. Destes, 11 eram correspondentes e colaboradores de veículos internacionais.









