
O Trem de Aragua, organização criminosa cujo cais usado para translado de drogas teria sido atingido pela CIA no início de dezembro, é muito mais conhecido do que o Cartel de los Soles, outro grupo venezuelano que Donald Trump colocou na mira.
El tren de Aragua, seu nome original, em espanhol, é antigo objeto de estudo de pesquisadores e investigadores policiais. Boa parte de sua história está contada no livro "Tren de Aragua: la banda que revolucionó el crimen organizado en América Latina", da jornalista venezuelana Ronna Rísquez.
A facção surgiu a partir de uma disputa pelo poder em um sindicato de trabalhadores que construíam uma linha férrea entre Puerto Cabello e Luz de Angra. O centro nervoso do grupo, inicialmente, era o Estado de Aragua, no norte da Venezuela.
Foi dali que a organização começou a se espalhar por Estados vizinhos: chegou a Caracas e, hoje, graças a uma combinação explosiva entre um governo falido, uma crise institucional, política e econômica, e um êxodo sem precedentes de refugiados no continente, galgou outros países. No Brasil, segundo investigadores, O trem de Aragua atuaria em quatro Estados (Santa Catarina, Paraná, Roraima e Amazonas). O próprio livro de Ronna cita uma articulação costurada na Bolívia entre o grupo e o PCC.
O modus operandi transnacional do grupo e menções a sua atuação "terrorista" aparece no livro Tren de Aragua: From Prison Gang to Transnational Terror, de Kane Janes. A obra conta como a facção evoluiu de uma rede baseada em prisões para uma das organizações criminosas transnacionais mais temidas do planeta.
Os criminosos atuam como um cartel de drogas tradicional, com atuação também no contrabando de armas, exploração sexual, extorsões, assassinatos, violação de cadáveres, e, cada vez mais, proximidade com os setores político e produtivo da economia.
Seu líder seria Héctor Rustherford Guerrero Flores, cujo nome de guerra é “Niño Guerrero”. Sua atuação ajudou a tornar o nome do grupo conhecido dentro e fora da Venezuela. Ele cumpriu pena em duas ocasiões na no Centro Penitenciário de Aragua, conhecido como presídio de Tocorón. Fugiu nas duas vezes. O local, de onde ele comandava a facção, se tornou conhecido pelo luxo a que os presos tinham acesso: mulheres de programa, bares e até a um zoológico com animais silvestres.
Em 20 de fevereiro, O governo de Trump designou oito organizações criminosas como grupos terroristas — o Trem de Aragua era uma delas. Em 16 de março, os EUA deportaram mais de 200 venezuelanos acusados de participar do grupo. Foram enviados por avião a El Salvador, cujo governo teria recebido pagamentos para manter os venezuelanos em suas prisões. Em 2 de setembro, os EUA realizaram o primeiro ataque a embarcações que saíam da Venezuela pelo mar do Caribe. Segundo Trump, a operação matou 11 "narcoterroristas", entre eles membros da facção.




