
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024, assim como seus reflexos recorrentes, foram um dos principais assuntos abordados em uma publicação recente elaborada conjuntamente pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) e pela revista britânica The Lancet, um dos mais importantes periódicos científicos da área médica no mundo.
O material da Lancet tratou dos impactos das mudanças climáticas na saúde das populações. O MSF compartilhou as experiências vividas no RS, tanto durante as chuvas que atingiram a região do Vale do Taquari em 2023 quanto nas enchentes de 2024, destacando a relação entre a exposição repetida a eventos climáticos extremos e o impacto na saúde mental — foco da atuação da organização no Estado.
— Fazemos um relato da experiência desses dois projetos do MSF, sobretudo ressaltando a importância de prestarmos atenção às populações que, em situações como essa, podem estar mais vulnerabilizadas. No mapeamento que fizemos em ambas as ocasiões, identificamos desde o início alguns grupos como mais expostos a riscos: comunidades indígenas vivendo em territórios tradicionais, migrantes, populações rurais e idosos em contextos rurais. Um exemplo muito singelo, mas impactante, é o acesso à comunicação — explica Anderson Beltrame, psicólogo que atuou como gerente de saúde mental do projeto do MSF.
Um dos pontos também abordados no artigo divulgado na Lancet foi o intervalo de tempo entre as duas enchentes, que não permitiu uma recuperação adequada.
— Os impactos da mudança climática atingem de forma muito desigual diferentes regiões do globo e, sobretudo, recaem repetidamente sobre as mesmas áreas. A mesma população acaba ficando exposta continuamente a essas incidências e não tem tempo para se recuperar. Essa dimensão do tempo para lidar com o que aconteceu e reencontrar a resiliência necessária para reconstruir tem sido algo muito difícil para essas comunidades. Consequentemente, o impacto em termos de saúde mental é muito grande.
Percepções entre os dois eventos
O psicólogo relatou ainda que, em contato com parceiros, perceberam que, de uma enchente para outra, autoridades e equipes de atendimento conseguiram responder mais prontamente, por já terem acumulado experiência. Contudo, a população se viu mais afetada pela falta de tempo de recuperação, o que pode trazer reflexos significativos à saúde mental.
— Há algumas reações esperadas e normais diante de uma situação anormal. Podemos observar quadros mais ansiosos, mudanças no apetite, alterações na rotina de sono. Mas não podemos diagnosticar essas manifestações como transtornos nesse contexto, pois são respostas naturais. O que é importante e sempre frisávamos com nossos parceiros é a intervenção no tempo oportuno, garantindo que as pessoas afetadas encontrem o apoio necessário nesse primeiro momento pós-resposta. Caso esse apoio não ocorra, essas reações podem se cronificar e, aí sim, se transformar em um problema de saúde mental.
O psicólogo lembrou que, fora de um contexto de emergência, a população que necessita de cuidado especializado em saúde mental gira, epidemiologicamente, entre 1% e 2%. Após um desastre natural, essas porcentagens podem dobrar, chegando a 4% ou até 6%.
— Se não implementarmos ações oportunas e precoces, um contingente muito maior de pessoas poderá necessitar de cuidados especializados, o que pode levar ao risco de colapso do sistema, pois a capacidade de resposta pode ser colocada em xeque. Não existe saúde sem saúde mental. Qualquer resposta em saúde, especialmente em contextos de emergência, sobretudo emergências climáticas, precisa levar em consideração a dimensão do cuidado em saúde mental, principalmente com foco comunitário.





