
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterou na segunda-feira (22) que o país precisa controlar a Groenlândia por “motivos de segurança nacional”. A declaração ocorre após o republicano anunciar, no domingo (21), o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial para a ilha — cargo inédito na diplomacia entre os dois países.
Embora defenda essa tese desde 2019, Trump intensificou a insistência em anexar o território em seu retorno à Casa Branca. Segundo o presidente, a localização estratégica e a riqueza em recursos naturais da Groenlândia seriam fundamentais para a proteção dos EUA.
O governo dinamarquês reagiu prontamente e convocou o embaixador americano para prestar esclarecimentos. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, e o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, divulgaram uma declaração conjunta em resposta a Trump:
"Não se pode anexar outro país, nem mesmo sob o argumento de segurança internacional. A Groenlândia pertence aos groenlandeses e os EUA não tomarão posse do território".
Onde está o interesse?
A intenção de Trump está alinhada às diretrizes do mais recente National Security Strategy (NSS), documento que orienta a política externa e de defesa dos EUA. O texto do segundo mandato de Trump faz menção à Doutrina Monroe, que defende "A América para os americanos" — ou, na prática, sob a influência dos interesses de Washington.
Outro conceito citado por especialistas é o "Corolário Trump", uma alusão ao Corolário Roosevelt, de 1904. Como já detalhado pela coluna, enquanto a Doutrina Monroe buscava afastar a Europa do continente, o Corolário Roosevelt dava aos EUA o papel de "polícia" do Hemisfério Ocidental. Agora, o termo de Trump é utilizado para justificar intervenções preventivas, principalmente contra a influência da China e da Rússia, com foco inicial na América Latina, mas aplicável a outras regiões de interesse.
Mas e a Groenlândia?
O interesse pela Groenlândia se explica pela transformação do Ártico em uma arena de competição estratégica. Com o derretimento do gelo, a região torna-se mais acessível, abrindo rotas para que China e Rússia expandam sua presença comercial e militar. Para a Casa Branca, manter a Groenlândia sob controle de um governo europeu — ainda que aliado — já oferece um desconforto.
Além disso, acredita-se que a ilha possua vastos depósitos de petróleo e minerais críticos, como as terras raras, setor no qual a China detém um quase monopólio. Embora a maioria dos 57 mil habitantes da Groenlândia deseje a independência da Dinamarca, o movimento separatista local não demonstra interesse em integrar os Estados Unidos.



