
Até então, era apenas leitura de cenário a partir dos movimentos do governo Donald Trump na América Latina, como o aumento da pressão sobre a Venezuela de Nicolás Maduro e a clara tentativa de intervenção na política interna brasileira a partir do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Agora, está escrito na pedra, no mais importante documento estratégico americano, a National Security Strategy do novo mandato do republicano, divulgada nesta sexta-feira (5) (leia na íntegra aqui, em inglês). O texto, editado em geral a cada mandato presidencial, orienta a política externa e de defesa dos EUA, elegendo prioridades e identificando adversários geopolíticos. O documento de Trump 2.0 oficializa a reorientação da presença militar americana global para focar na América Latina.
Vale prestar atenção a duas palavras no documento de 33 páginas. A primeira delas é a referência à doutrina Monroe. Anunciada pelo presidente James Monroe em 1823, dizia ao mundo: “A América para os americanos.” Mas o real significado era: a América para os interesses dos Estados Unidos. Em suma, a Europa não deveria interferir nas Américas: os EUA afirmaram que qualquer tentativa de recolonização ou intervenção europeia no continente seria vista como uma ameaça direta. Em troca, os EUA não se meteriam nos assuntos europeus. Era uma barganha diplomática: cada hemisfério cuida do seu.
A doutrina estabelecia que as Américas – do Alasca à Argentina – ficariam sob a esfera de influência dos EUA, criando uma fronteira política simbólica entre “Novo Mundo” e “Velho Mundo”. À época, muitos países latino-americanos estavam conquistando a independência. A doutrina serviu como um escudo retórico contra o retorno das potências europeias — mas, ao mesmo tempo, abriu caminho para os EUA se afirmarem como poder hegemônico no Hemisfério Ocidental.
De 1823 para 2005, o que mudou? Não é a Europa, na visão americana, o principal rival. Agora, é a China, país recorrente nas últimas edições da National Security Strategy como grande adversário geopolítico dos americanos.
O documento de 2025 cita quatro vezes a doutrina Monroe.
Mas não é só isso. A segunda expressão importante no texto é "Corolário Trump", mencionada três vezes no texto deste ano. Trata-se de uma referência ao "Corolário Roosevelt", instituído pelo presidente Theodore Roosevelt, em 1904. Os dois conceitos estão conectados. A Doutrina Monroe afastava a Europa. O Corolário Roosevelt dava aos EUA a licença para agir como polícia do Hemisfério Ocidental.
Mas o que isso significa?
A expressão passou a ser usada por diplomatas para descrever uma reinterpretação moderna e mais agressiva da Doutrina Monroe durante o primeiro mandato de Trump (2017–2021). A ideia surgiu especialmente depois que John Bolton, então conselheiro de Segurança Nacional, declarou em 2019: “A Doutrina Monroe está viva e bem.” E completou que os EUA “não tolerariam governos socialistas no Hemisfério Ocidental”.
A partir dessa afirmação, passou-se a considerar a postura dos EUA na região como um “Corolário Trump” em analogia ao Corolário Roosevelt, que ampliou a Doutrina Monroe para justificar intervenções preventivas. Trata-se de um renascimento agressivo da Doutrina Monroe, agora voltado não contra a Europa, mas contra a influência da China e da Rússia na América Latina, e a tentativa de minar governos de Cuba, Nicarágua e Venezuela, considerados “hostis” ou “socialistas”
São três ideias básicas:
1) A América Latina deve permanecer sob influência dos EUA. Mas, diferentemente de Roosevelt, o foco não é mais impedir a Europa — é conter a China, a Rússia e o Irã no Hemisfério Ocidental.
2) Intervenção política e pressão econômica como ferramentas. O isolamento a Maduro é um exemplo, além do reforço de sanções econômicas contra Cuba e Nicarágua.
3) Rejeição explícita a governos de esquerda no continente, em especial, Venezuela, Cuba e Nicarágua (chamada de "troika da tirania"), mas pode ser estendido a outros governos com essa orientação ideológica, como Brasil e Colômbia.






