
A ânsia de Donald Trump em acabar com a guerra na Ucrânia, para colher os louros de "homem da paz", pode expor o continente europeu a um risco ainda maior. Um acordo mal costurado com a Rússia — leia-se, sem mecanismos sólidos de fiscalização e punição em caso de descumprimento (não que Vladimir Putin dê muita importância a isso) — deixaria em aberto o flanco para futuras aventuras do Kremlin em outros países do continente. Moldávia, onde os russos apoiam separatistas, e os bálticos (Letônia, Lituânia e Estônia), pelos gargalos logísticos da Otan naquela região, são os alvos diretos.
Um estudo publicado este mês pela consultoria Geopolitical Futures destaca fragilidades em oito países do Leste Europeu e adjacências, identificadas durante exercícios militares da Otan desde 2020. Estradas e ferrovias inadequadas para o deslocamento rápido de blindados dificultariam uma reação militar eficaz na região.
O chamado Corredor de Suwałki — um trecho de cerca de 100 quilômetros entre a Polônia e a Lituânia — atua como uma "fenda" na aliança atlântica, um corredor estratégico por onde forças russas poderiam avançar para dividir os Bálcãs da Otan.
A Polônia, caixa de ressonância do temor europeu, revive a cada drone que cai na fronteira com a Ucrânia o medo das sucessivas invasões históricas — dos czares e dos soviéticos. Enquanto a vida segue aparentemente normal nas avenidas de Varsóvia, é no movimento constante de caminhões da Otan pelas estradas do interior e nas conversas com políticos e diplomatas que esse receio se manifesta.
A National Security Strategy, documento que define os rumos da política externa americana e foi divulgado na sexta-feira (5), traduz em texto o que já é uma realidade geopolítica: a Europa, que durante décadas, desde a Segunda Guerra Mundial, viveu confortavelmente sob o guarda-chuva protetor dos Estados Unidos, foi abandonada por Trump. Mais do que isso, é agora vista por parte da liderança americana como uma ameaça aos valores da civilização ocidental.
Sozinha, a Europa está se armando até os dentes. Em maio, a Comissão Europeia lançou o SAFE (Security Action for Europe), um fundo de € 150 bilhões (cerca de US$ 174 bilhões) que concede aos membros da UE empréstimos a juros baixos para investimentos em defesa. Pelo menos 19 países já haviam se inscrito. Só a Polônia requereu € 43,7 bilhões.






