
O ano de 2025 para a Igreja Católica foi marcado, principalmente, pelo falecimento do papa Francisco e a eleição de Leão XIV para a liderança dos fiéis de todo o mundo. O arcebispo metropolitano de Porto Alegre, dom Jaime Spengler, viveu esse momento histórico por dentro.
Além de ocupar o posto na capital gaúcha, ele participou do conclave e esteve na liderança de duas importantes entidades: a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam).
À coluna, o cardeal fez um balanço das suas atividades no ano, contou sobre a emoção da despedida a Francisco, os bastidores do conclave e teceu críticas a posições extremas na política brasileira.
Foi um ano cheio?
Eu diria não um ano cheio, mas transbordante.
O senhor tem viajado bastante?
Tenho andado bastante. Até perdi alguns quilos, e isso é muito bom.
O senhor foi criado cardeal pelo papa Francisco. Como foi aquele dia para o senhor?
Eu realmente não esperava. Foi uma grande surpresa. Entre nós, no Brasil, é claro que se comentava sobre a possibilidade de um ou outro brasileiro vir a ser criado naquele período do ano, mas não se pensava no arcebispo de Porto Alegre, até porque Porto Alegre não tem uma tradição de sede cardinalícia. Quando, durante a segunda sessão do sínodo de 2024, chegou o anúncio dessa criação, foi uma grande surpresa. Jamais imaginei algo parecido para a minha história. Até mesmo, jamais imaginei que um dia estaria aqui, em Porto Alegre, como arcebispo.
Mas o Rio Grande do Sul e Santa Catarina deram à Igreja grandes cardeais: dom Cláudio Hummes, dom Ivo Lorscheiter, do Aloísio Lorscheiter, dom Leonardo Ulrich Steiner.
Certamente, tem uma história. Agora, digo que eu sou um peixe pequeno, e como peixe pequeno desejo continuar fazendo aquilo que é parte da nossa vida. Eu recordo quando, diante do papa Francisco, no dia 7 de dezembro do ano passado, quando eu me aproximei para a imposição do chapéu cardinalício, ele me disse: "Olha, só peço uma coisa: não perca a simplicidade". E é isso que tem sempre me orientado.
A vida religiosa exige um desprendimento das suas origens. O senhor está há 13 anos em Porto Alegre. Como é esse desprendimento?
Qualquer forma de vida requer um desprendimento. Quando abraçamos uma forma de vida, seja como leigo, seja como pai, mãe de família, seja como religioso, precisamos cultivar uma disposição para estar pronto para o que der e vier. É essa disposição que concede serenidade para fazer aquilo que a vida, a história e a sociedade solicitam de cada um de nós. Essa disponibilidade, essa presteza, é fundamental, seja para o nosso equilíbrio interior, seja para aquilo que talvez nós denominamos felicidade ou realização humana. Isso vale para todas as formas de vida.
Como o senhor recebeu a notícia da morte do papa Francisco?
Foi uma surpresa a rapidez com que aconteceu o falecimento. No domingo de Páscoa, na sacada da basílica, via-se que estava frágil, mas, depois, ele mesmo saiu com o papamóvel para fazer um giro pela Praça de São Pedro e surpreendeu a muitos. Logo em seguida, chega a notícia do falecimento: realmente foi algo que não se esperava.
O senhor estava onde?
Estava em casa, aqui, em Porto Alegre. Estava me preparando para a Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que seria na semana seguinte. Tínhamos convidado o então cardeal (Robert) Prevost (eleito no conclave papa Leão XIV) para estar conosco nos primeiros dias. Tínhamos comprado a passagem, organizado o modo de buscá-lo no aeroporto...
Estava confirmada a presença?
Confirmada. Foi quando tivemos de suspender a celebração da assembleia, e os cardeais do Brasil foram convocados a Roma.
O senhor foi criado cardeal em dezembro e, então, ocorreu o falecimento do Papa. Naquele momento, chegou a passar pela sua cabeça: "Agora vou participar da escolha de um novo Papa"? Ou naquele momento o foco era a despedida do papa Francisco?
Uma enxurrada de sentimentos. Primeiro, a preocupação com a assembleia da CNBB, que sempre é um evento muito importante e marcante. Mas tem toda uma questão prática a ser resolvida. Depois, o dever de participar do processo de transição — seis meses de quando fomos criados cardeais. Tenho na mente ainda muito presente a cerimônia de exéquias (sepultamento) do papa Francisco, quando vimos aquela praça tomada de gente, e depois quando o corpo saiu para ser levado para Santa Maria Maior, e escutar de pessoas, mendigos, moradores de rua, dizerem: "Ele nos entendia, a gente entendia ele". Ali apareceu um carinho, uma proximidade toda própria. A multidão que acompanhou o cortejo pelas ruas de Roma até a Basílica de Santa Maria Maior foi impressionante. Depois também, nos dias que antecederam o conclave, poder escutar os cardeais de todo o mundo. Foi uma experiência única. Escutar as expectativas, mas também as dores de cada um a partir da realidade onde se encontram, é algo que... Não sei se há outra instituição na sociedade capaz de te dar uma visão da geopolítica e eclesial como um evento como este.
É possível identificar semelhanças entre os papas Francisco e Leão XIV?
Jamais há uma ruptura. E Leão tem deixado isso muito claro. Existe uma continuidade. Depois, as orientações que nos chegaram até agora, por exemplo, a exortação apostólica Dilexi Te (que significa "Eu te amei", em latim), onde ele fala da pobreza, está em estreita união com Paulo VI — que não é um papa da nossa geração —, mas também com João Paulo II, a seu modo. Com Bento XVI também, que não foi muito compreendido ao longo do seu pontificado; seja Francisco, que foi duramente criticado por alguns setores, de uma forma, eu diria, até desrespeitosa por alguns... A gente percebe, sim, uma continuidade e, eu diria, até um destaque ainda mais incisivo nessa questão da pobreza. Estamos passando por uma revolução, agora tecnológica, e o próprio nome que ele (o cardeal Prevost) escolheu já aponta uma direção. Se Leão XIII foi o papa dos sindicatos, dos trabalhadores, da célebre encíclica Rerum Novarum, que é um marco até hoje na doutrina social da igreja, vemos que Leão captou o espírito da época. Lá, se vivia uma revolução industrial. Hoje, estamos em uma revolução tecnológica. Como a sociedade pode responder? Por onde vamos? As relações de trabalho, as relações com o mundo da economia, tudo isso está em transformação.
A própria vivência do cardeal: ser americano, mas ter uma vida pastoral no Peru, na América Latina, por exemplo.
Isso é muito interessante. E imaginar que, em três anos, a vida desse homem mudou radicalmente. Três anos atrás ele estava aqui, no Peru, andando de mula, para visitar comunidades da diocese onde ele se encontrava. Depois, chamado a Roma, onde esteve ali a serviço do dicastério dos bispos por dois anos e um pouquinho. Então, ele tem um certo conhecimento da estrutura da Cúria Romana, e agora escolhido para esse ministério, é um assombro, é uma transformação total.
Durante o conclave, em algum momento o senhor ficou pensando "será que eu estou fazendo certo?" O que passava pela sua cabeça naqueles momentos?
O conclave é uma liturgia: portanto, há um rito próprio. A própria veste dos cardeais é a expressão dessa dimensão litúrgica do conclave. Eu não tinha conhecimento disso. Percebi depois, porque a veste vermelha é a que se usa na liturgia — não é, digamos assim, a do cotidiano, que seria a batina preta. Esse é o primeiro dado. O segundo dado que chamou muita atenção foi quando ingressamos na Capela Sistina cantando a Ladainha de Todos os Santos. Depois, o juramento sobre o Evangelho. Confesso que caminhar, cantando a ladainha, foi de arrepiar. Depois, quando chegamos nos lugares que estavam predispostos para cada um, por ordem de criação, invocar o Espírito Santo cantando... Eram 133 homens, aquilo é um coro especial. Eu confesso que aquilo me emocionou, e isso diante do Juízo Final, pintado no fundo da Capela Sistina, e com aquele crucifixo que ornamenta ali o altar. A pergunta era: "O que eu estou fazendo aqui? Qual é a minha responsabilidade nesse momento da história? Por onde somos chamados a caminhar?" Acredito que não somos nós que guiamos a Igreja. É um outro. E esse outro concede, a cada tempo, uma pessoa à altura. Cada época, por assim dizer, tem o sucessor de Pedro de que necessita. E é isso que, de alguma forma, nos orientou ali. Chegamos à Capela Sistina, e não se falava no nome desse ou daquele (cardeal favorito para ser eleito). Eu não ouvi de parte alguma alguém dizer: "Olha, talvez fosse interessante ter um nome com essa característica ou aquela outra". Não ouvi ninguém sugerindo uma corrente ou outra. O nome do eleito foi crescendo entre nós, naqueles dois dias de votação. Votação após votação, o nome foi despontando, e ele foi crescendo, tomando corpo, até que, naquela bendita última votação, no final da tarde, ele alcançou os 89 votos necessários para a eleição. Me recordo muito bem que, quando iam se aproximando os votos do número necessário para a eleição, eu estava de frente (para o cardeal Prevost), que estava do outro lado da capela. A impressão que dava era de que ele ia murchando, encolhendo-se na cadeira onde estava sentado. É algo que eu diria: só a partir da perspectiva da fé, creio, podemos interpretar.
O papa Leão já comentou com o senhor sobre esse momento?
Eu estive com ele já duas ou três vezes depois da eleição. Não entramos nesses detalhes. É verdade que agora vamos ter um tempo maior: no início de janeiro, ele convocou um consistório . São dois dias de diálogo. Não sabemos qual será a temática. No final de janeiro, tenho 10 dias em Roma para a visita da presidência da CNBB aos dicastérios da Cúria. Temos um momento com ele também. E temos os 200 anos das relações diplomáticas do Brasil com a Santa Sé.
Naquele momento em que cada um dos cardeais se aproxima e presta reverência ao Papa recém-eleito, o que o senhor disse a Leão?
Na hora do abraço, quando eu me aproximei, eu disse de uma forma muito simples: "Santo Padre, perdemos o nosso pregador da Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, mas ganhamos o Papa". E ele deu uma gargalhada bonita, gostosa.
O conclave conta com todo o seu segredo, mas tem algumas histórias engraçadas que o senhor já comentou. Como foi a história do barbeador?
Muito simples. Quando chegamos à Casa Santa Marta, entregamos os celulares, relógios, computador.
Coisa boa, né? Ficar sem celular um tempo.
(Risos) Uma beleza! Um dos cardeais, quando chegou ao seu quarto, foi procurar uma tomada. Encontrou um móvel no canto, foi lá, afastou, atrás tinha uma tomada, e ali tinha alguma coisa conectada. E ele tirou aquilo da tomada e botou o que quis. Em menos de dois minutos, entrou a segurança dizendo: "Olha, o bloqueador de celulares aqui da casa foi desligado". Isso é um dado interessante para dizer do controle que existia em todo o espaço, a necessidade de preservar o próprio conclave de qualquer interferência externa. Mas eu faria uma relação com outro fator. Admira-me muito que, nos nossos presídios do Rio Grande do Sul, não se consegue implantar os bloqueadores de celular. Se discute isso há anos, e a situação não avança.
Para onde caminha a Igreja brasileira nesse mundo político da polarização?
Primeiro dado: a missão da CNBB é promover a comunhão entre os bispos. E esse é um desafio enorme. Primeiro dado. Segundo dado: os bispos e o clero em geral também são membros da sociedade, têm suas posições políticas. Isso é bom, não é mal. Ao contrário, eu diria extremamente positivo. Agora, o que não podemos jamais é compactuar com posições marcadas por ideologias que não promovem a vida. É necessário muita prudência, bom senso, capacidade de discernimento para compreender o que está em questão. Vivemos essa situação que se criou nos últimos anos, sobretudo a partir da dimensão política da vida da sociedade. Mas no interno da Igreja também: desde os anos 1990, construiu-se uma narrativa em torno de posições que, naquela época, talvez tinham sua razão de ser — e aqui eu me refiro sobretudo a este empenho da Igreja na defesa da vida e, sobretudo, dos pobres —, que causou e continua causando desconforto em alguns setores. Creio que, por meio do diálogo sincero, da oração, da atenção àquilo que é próprio da fé cristã presente nos evangelhos, mas também na tradição da Igreja e, sobretudo, na doutrina social, precisamos de uma sintonia toda própria.
O senhor acha que a Igreja está mais aberta às diferenças?
Eu faria duas observações: quando dizemos "católico", não nos referimos simplesmente à pertença a um credo. Segunda observação: "católico" é uma palavra de origem grega e que tem a sua constituição na língua grega, katholikos. Katholikos em grego significaria, em uma tradução fácil, "estar na sintonia ou na atenção ao todo". Então, nesse sentido, católico poderia, vamos dizer, expressar magnanimidade, largueza de mente e de coração, capacidade para acolher a todos, sem distinções. Isso seria o autêntico católico. Enquanto Igreja Católica, possuímos uma doutrina, orientações morais, uma disciplina que precisa, de alguma forma, ser observada. Agora, não podemos jamais colocar o âmbito legal à frente daquilo que denominamos vida, que precisa sempre ser cuidada, respeitada e promovida. Aquilo que são as normas, as orientações, eu diria, não tem valor absoluto. Cada situação exige uma resposta adequada, e isso requer esforço também mental, racional, para considerar cada situação na sua especificidade e a partir dali encontrar uma resposta adequada. Um exemplo prático: quando o papa Francisco publicou o documento Alegria do Amor, a Amoris Laetitia, ali ele deixou uma breve indicação da necessidade de uma atenção especial às realidades de segunda união. A polêmica que se criou em torno disso... e eu creio que nesse meio existem muitas pessoas que vivem de forma íntegra, plena, aquilo que é próprio, por exemplo, no caso da vida matrimonial. Eu creio que precisamos, sim, de uma sensibilidade toda própria para acompanhar e talvez orientar esses casos delicados, que fazem parte da vida humana.
Como o senhor avalia o crescimento de outras religiões, especialmente dos evangélicos?
É um fenômeno que está aí, no qual precisamos nos aprofundar para uma boa análise, mas também buscarmos fazer uma crítica, olhando para nós internamente. Onde foi que não demos a suficiente atenção? Segundo ponto: falando da realidade da Arquidiocese de Porto Alegre, nesses dias, passando por várias comunidades, chama a atenção o número de adultos que está solicitando a possibilidade de fazer um processo de iniciação à vida cristã. Em Porto Alegre, que é tida como uma cidade extremamente laica, marcada pelo positivismo, temos comunidades que, até oito, nove anos atrás, tinham oito, 10 catequizandos, hoje têm mais de cem. Há alguma coisa acontecendo no subsolo da própria sociedade, que ainda precisaria de uma análise particular. Tem pontos positivos.
Como está o contato com os jovens?
Esse é um dado que merece uma atenção toda especial. Como Igreja, temos um desafio muito grande pela frente: tornar a mensagem compreensível às gerações atuais. Que linguagem usar para a transmissão da mensagem? A Igreja Católica possui um tesouro extraordinário em termos de compreensão da mensagem. Mas como tornar essa mensagem compreensível ao adolescente e ao jovem de hoje? Talvez um exemplo que poderia ajudar nesse sentido venha da própria formulação daquilo que, para nós, é essencial no credo. São definições forjadas no século 4, 5, 6, em uma língua que não é a nossa, no grego, no latim, mas que também, ao longo dos séculos, foram se transformando. A linguagem precisa ser melhor explorada, porque, quando precisamos explicar demais, é porque o conceito já não mais encontra repercussão na época presente.
Como o senhor se enxerga daqui a um ano, em 2026?
Eu gostaria de chegar a dezembro de 2026 com um Brasil mais sereno, onde realmente as condições de vida do nosso povo — e de todo o nosso povo, não só de alguns — pudessem ser melhores do que estão sendo nos dias atuais. Também com uma classe pública — e aqui eu me refiro ao âmbito do Legislativo, do Judiciário — marcada pela ética, e não tanto pelos jogos de interesses como temos assistido. São uma vergonha algumas posições e expressões do nosso parlamento, mas também algumas decisões que vemos no âmbito do Judiciário. É verdade também que nesse âmbito temos gente muito dedicada, séria, como também no meio do empresariado, do agronegócio. Tem gente realmente extremamente preocupada com o bem-estar de todos. Então, eu espero que em dezembro de 2026 nós possamos contar com um Brasil mais sereno, mais integrado e integrador, onde realmente o nosso povo possa cultivar fraternidade e viver em paz. O nosso povo é pacífico, o nosso povo é bom; tem gente muito boa entre nós. Nós testemunhamos isso durante a tragédia do ano passado, de 2024, aqui no nosso Rio Grande do Sul, e não podemos baixar a guarda em relação a esse modo de ser bom da maioria, da grande maioria do nosso povo.
O convite para o papa Leão vir ao Brasil já foi feito?
Pois é, essa é uma indicação, sim, que tínhamos em relação ao papa Francisco. E ele tinha, inclusive, dito a nós que colocaria para avaliação a possibilidade de talvez estar presente na celebração dos 400 anos da região missioneira, agora no próximo ano. Vamos ver com o Leão. Temos a visita no final de janeiro (a Roma), a conferência dos bispos, se houver espaço, possibilidade, depende de todo um contexto... Mas seria muito bonito se pudéssemos, em um futuro próximo, tê-lo aqui entre nós para nos confirmar na fé.
Muito obrigado pela conversa. Um excelente Natal.
Que o nosso povo possa celebrar bem o Natal. Natal significa, para nós, a manifestação da ternura de Deus, que se expressa na fragilidade humana. Que o nosso povo, a nossa gente, as nossas comunidades possam ter um abençoado e santo Natal. E oxalá o ano vindouro possa ser um ano para a construção de um Brasil mais justo, mais fraterno para todos.



