
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Na última quarta-feira (10), Javier Milei completou dois anos de presidência na Argentina. A coluna conversou com o presidente da Câmara de Comércio Argentino Brasileira de São Paulo (Camarbra), Federico Servideo, que fez um balanço dos dois primeiros anos de mandato do presidente e falou sobre as relações entre os dois países.

Como é que vocês avaliam esses dois anos de Milei na presidência?
Muitas coisas têm acontecido, principalmente a estabilização na Argentina com a queda da inflação e uma certa regularização dos mercados. Então, foram dois anos com muito foco na estabilização macro e na queda da inflação. Isso provocou uma recessão argentina bastante significativa, que se intensificou bastante na metade desse ano, antes das eleições de meio-termo. O comércio começou a se recuperar esse ano, e, de fato, se olharmos os números, o Brasil exportou para a Argentina, de janeiro a setembro desse ano, algo em torno de 40% a mais do que exportou em 2024, no mesmo período. Então, o resumo desses dois anos: a Argentina, o governo do presidente Milei, estabilizou a economia, controlou a inflação, provocou uma certa recessão, provocou um desequilíbrio em alguns setores e uma reorganização macro econômica, com os impactos no comércio exterior específicos e esperados, com uma queda significativa no ano de 2024 do comércio e uma recuperação muito baseada na baixa base de comparação de 2024, já em 2025. Esse é um resumo. A grande diferença que notamos hoje, de há um ano atrás ou de há dois anos atrás, é que hoje as expectativas da população argentina e, portanto, as expectativas do empresariado em geral, são bem positivas quando comparadas com o passado. E isso não vemos só nas estatísticas, não só nas pesquisas, mas também no fluxo de pedidos de informação de investidores brasileiros em relação a oportunidades de negócios lá na Argentina. A grande mudança que hoje estamos percebendo, depois do triunfo eleitoral do presidente Milei nas últimas eleições de meio-termo, é essa virada de expectativas da população, dos empresários, dos potenciais investidores, em relação ao futuro do país, da Argentina como um todo e da economia em particular.
Nesse último ano, as relações com o Brasil melhoraram?
Hoje os brasileiros estão olhando para a Argentina com muito mais interesse. Não foram muitos investimentos implementados, mas houve investimentos brasileiros, instituições financeiras indo para lá, varejo indo para lá. Realmente, nós notamos uma mudança de tendência, um maior interesse, ainda talvez mais concentrado na análise, nos estudos, mas já estamos vendo casos concretos de projetos implementados de investidores ou empresas brasileiras lá na Argentina para aproveitar as oportunidades que o país apresenta.
Alguns analistas apontavam que poderiam haver animosidades entre Lula e Milei. Como avaliam esse ano entre os dois?
Sinceramente, não notamos nenhum impacto, nem muito negativo, nem muito positivo, dessa falta de alinhamento estratégico entre os presidentes. O comércio é feito pelos privados, os investimentos são feitos por empresas, que olham o macro, os fatos. Os corpos diplomáticos, os corpos técnicos dos diversos ministérios dos países têm trabalhado, e nós temos evidência, e temos acompanhado e participado como Câmara de Comércio, do trabalho dos corpos diplomáticos, dos corpos técnicos dos respectivos ministérios para resolver entraves. Aliás, esse ano assinamos o Acordo Mercosul-EFTA. No dia 20, os presidentes vão ratificar o Acordo Mercosul-União Europeia. Saindo do âmbito econômico, foi assinado um acordo de cooperação na área de segurança e de proteção contra o crime organizado entre os dois países. Ou seja, foram resolvidos muitos entraves, muitos problemas de regras de origem que facilitam o comércio. Foi flexibilizado o Mercosul, ao se dar mais partidas ou permitir que os países negociem diretamente um número maior de partidas por fora do regime cambial, do regime do Mercosul. Independentemente desse desalinhamento, o que temos notado em 2025 é um progresso, um avanço em diversas dimensões que facilitam o intercâmbio e a conectividade entre os nossos países. Lembremos que este ano foi a primeira vez que foi exportado gás argentino para o Brasil utilizando todo o sistema de gasodutos que passam pela Bolívia. Houve avanços, na nossa leitura, houve avanços significativos para criar uma base ainda maior e mais sustentável do comércio e do relacionamento bilateral entre os dois países, independentemente do desalinhamento ideológico dos presidentes.
Quais as expectativas para o acordo Mercosul-União Europeia?
Nós acreditamos que ele vai ser ratificado no dia 20 e, depois, ainda faltam os processos de ratificação para os outros países. Obviamente, nós conhecemos a relutância de alguns países lá na União Europeia, liderados pela França, como todos sabemos, mas hoje o acordo pode ser ratificado, como sabemos, por uma maioria de países lá na Europa, e entendemos que a maioria dos países, liderados pela primeira-ministra (Giorgia) Meloni, da Itália, vai conseguir ratificar o acordo do Mercosul. Nós somos cautelosamente otimistas de que o acordo vai ser ratificado, e isso é muito bom, não só para o Mercosul, mas para a Argentina, para o Brasil, para o Paraguai, para o Uruguai e agora para a Bolívia, que também se soma ao Mercosul como Estado pleno. Vai ser muito bom porque isso vai permitir, direta ou indiretamente, modernizar o Mercosul. E lembremos que os países do Mercosul vão acessar um mercado de 750 milhões de pessoas, um mercado que pode oferecer tecnologias, serviços financeiros e pode também oferecer um mercado onde os nossos produtos do Mercosul podem ser muito bem apreciados. Mais ainda, em neste momento bem conturbado da geopolítica mundial, onde a tradicional parceria entre a União Europeia e os Estados Unidos está sob discussão.
Se o senhor pudesse dar uma dica ao presidente Milei sobre o que focar nos próximos dois anos. O que falaria?
Acho que o presidente Milei tem feito, na avaliação geral, um bom trabalho. Me parece que o presidente, seus ministros e o governo como um todo têm que continuar fazendo as reformas que criem um ambiente de negócios ainda mais competitivo lá na Argentina, que favoreça ainda mais os investimentos dos brasileiros e do mundo em geral, que proteja ainda mais esses investimentos, que expanda o sistema financeiro para que esse sistema financeiro seja uma fonte de financiamento e que seja também uma oportunidade de investimento para os investidores brasileiros. Acho que chegou o momento de trabalhar agora um pouco, uma vez consolidada a macro, trabalhar na micro, para criar um marco regulatório que permita competitividade naquilo onde a Argentina realmente tem vantagens comparativas: o petróleo, a vaca morta (gás), o negócio do agro, a mineração, tudo isso é vantagem comparativa, mas como isso se transforma efetivamente em uma vantagem competitiva para atrair investidores, investimentos do Brasil, para integrar as cadeias produtivas e, com isso, conseguir desenvolvimento dos países e progresso das populações, que é o que precisamos: permitir que as nossas populações progridam e tenham uma vida melhor. O que eu falaria a Milei é: "Foque nas reformas, na criação de vantagens competitivas, continue atraindo investidores, crie uma plataforma, um ambiente para o desenvolvimento do país".






