
Há eleições que encerram ciclos. A do Chile, neste domingo (14), é uma delas.
Em sua terceira tentativa de chegar ao La Moneda, José Antonio Kast — frequentemente comparado ao ex-presidente Jair Bolsonaro — caminha para ser o vencedor. Pesquisas apontam entre 14 e 20 pontos de vantagem sobre a ex-ministra do Trabalho Jeannette Jara, do Partido Comunista.
Mas, mais importante do que o nome que emergirá das urnas, será o discurso que ele (ou ela) fará após a consagração. Porque esta eleição é menos sobre o futuro e mais sobre os fantasmas — recentes e distantes — que moldam o presente chileno.
O passado recente pesa. Kast deve vencer impulsionado por frustrações acumuladas em relação ao governo de Gabriel Boric, o presidente de esquerda eleito em 2021, ainda com 35 anos.
Herdeiro político do estallido social de 2019 — um movimento comparável às manifestações brasileiras de 2013 — Boric carregou para o governo as expectativas de um país disposto a reescrever suas bases. A promessa de uma nova Constituição, capaz de substituir a Carta herdada da ditadura de Augusto Pinochet, mobilizou milhões. Mas os dois processos constituintes fracassaram.
E, ao longo do mandato, Boric enfrentou reveses, desgaste político e uma crise de segurança que alterou a percepção da população. Hoje, chega ao fim do governo rejeitado por mais de 60% dos chilenos, enquanto um escândalo de assédio sexual de 2013, reacendido nos últimos meses, domina o noticiário.
Mas o Chile também carrega os fantasmas do passado distante. Kast é um admirador declarado de Pinochet. Em 2017, visitou Miguel Krassnoff, militar condenado por violações de direitos humanos, afirmando que os membros das forças armadas são perseguidos. Desde então, consolidou-se como o candidato da autoridade e da segurança.
No primeiro turno, realizado em 16 de novembro, Jeannette Jara surpreendeu ao ficar em primeiro lugar, com 26,8% dos votos, contra 23,9% de Kast. Ainda assim, foi o pior desempenho da esquerda desde 1990.
A direita tradicional e os libertários rapidamente se uniram em torno de Kast. Já os populistas de Franco Parisi, terceiro colocado, liberaram seus eleitores para escolher livremente na segunda vuelta.
Preso entre dois passados, o das frustrações recentes e o das memórias da ditadura, o Chile parece não apenas prestes a fechar um ciclo, mas a buscar, quase desesperadamente, uma forma de recuperar a estabilidade. Mesmo que esta estabilidade tenha sido, em diversos momentos, artificial, ora sustentada pelo autoritarismo, ora pelo otimismo neoliberal que não chegou para todos.
O resultado deste domingo dirá muito sobre o futuro do país. Mas o discurso da noite de vitória dirá ainda mais sobre como o Chile pretende enfrentar seus fantasmas e que tipo de ciclo está realmente disposto a iniciar.





