
É claro que os rumores de que o ditador Nicolás Maduro já teria fugido para o Brasil são muito mais sedutores, do ponto de vista de audiência e engajamento na lógica dos algoritmos. Não à toa o boato tomou conta das redes sociais no final de semana, reforçado, inclusive, pela informação de que o avião que já foi usado pelo venezuelano ter viajado de Caracas para a região próxima à fronteira com Roraima. Mas durou pouco.
A aparição de Maduro em Caracas desmentiu o que já corria como fato consumado no ambiente pouco crível das mídias digitais.
Não é de se descartar que o imperador do Miraflores escolha o Brasil para viver sua aposentadoria, como asilado, em caso de fuga. Afinal, nosso país costuma ser um esplêndido refúgio para ditadores — que o digam aqueles que conviveram com Alfredo Stroessner, o autocrata paraguaio que, apeado do poder, viveu tranquilamente em uma mansão em Brasília, até morrer em 2006, sem ser "importunado" pela Justiça.
Mas há outros "candidatos" a porto seguro para o bolivariano diante das pressões americanas. Eu apostaria na Turquia, país que vem crescendo como ator geopolítico nos últimos anos.
Maduro confia em Recep Tayyip Erdogan, que, por sua vez, tem boas relações tanto com Donald Trump quanto com Vladimir Putin. De um lado, o bolivariano poderia ter a garantia de que não seria extraditado para os EUA, onde é acusado de tráfico de drogas, corrupção e narcoterrorismo. De outro, se a coisa apertar, ele ainda poderia correr para o Leste, para o guarda-chuva do Kremlin.
A Rússia é a aliada mais próxima do regime venezuelano - e não é incomum aeronaves militares de Putin pousarem no aeroporto Simón Bolívar com cargas não identificadas.
Único país de maioria muçulmana membro da Otan, a Turquia poderia se tornar ainda mais relevante no xadrez político — mediar um exílio para Maduro, com a confiança de Trump, seria um passo para Erdogan se cacifar a uma possível interlocução entre EUA e Rússia sobre a Ucrânia.
Aliás
Que fase!
A Turquia teve, junto com o Catar, papel fundamental no arranjo que resultou no cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas. Dias atrás, o país teve confirmada a sede da COP31, em Antalya, balneário no Mar Mediterrâneo. E, na semana passada, recebeu a primeira viagem internacional do papa Leão XIV.
O país do autoritário Erdogan tem se posicionado como importante ator geopolítico no Oriente Médio e como elo entre Oriente e Ocidente - algo que ficou claro na visita do Pontífice.
A propósito
Maduro exilado no Brasil seria um grande pepino para Lula, uma vez passada, aparentemente, a fase mais crítica das relações com os EUA sob Trump.


