
Desde setembro de 2024 em Porto Alegre, o cônsul-geral dos Estados Unidos na capital gaúcha, Jason Green, revela-se um apaixonado pela cidade e pela cultura do Rio Grande do Sul. Toma chimarrão, passeia pela Redenção aos finais de semana e aprecia o bairro Cidade Baixa.
Aos 55 anos, Green acumula a experiência de ter atuado em Israel, no Afeganistão, na África do Sul e no Paquistão. Antes de ser diplomata, Green trabalhou como advogado do sindicato de atores em Los Angeles.
Nesta entrevista, ele fala sobre as relações entre EUA e Brasil, a crise tarifária, cooperação em setores como inovação, na retomada econômica do Rio Grande do Sul após a enchente, e o rigor na análise para concessão de vistos. Leia os principais trechos.
Poderia se apresentar aos gaúchos?
Meu nome é Jason Green, sou o cônsul-geral no consulado americano em Porto Alegre. Sou do leste do Tennessee, no sul dos Estados Unidos, na região das Montanhas Great Smoky. Fiz faculdade de Artes Cênicas na SUNY Purchase, a Universidade Estadual de Nova York em Purchase, e estudei Direito na Southern Illinois University. Trabalhei em Los Angeles como advogado de entretenimento antes de entrar para a carreira diplomática. Servir aos EUA pelo mundo tem sido uma honra para mim. Porto Alegre é, definitivamente, o ponto alto da minha carreira. Em 17 anos como diplomata, algumas das minhas maiores alegrias têm sido conhecer pessoas, experimentar comidas locais, viajar e mergulhar de verdade em diferentes culturas. Aqui no sul do Brasil, com a comunidade gaúcha, vivo tudo isso de uma forma diferente de qualquer outro lugar. Enquanto São Paulo me lembrou da energia acelerada de Nova York, a vida aqui parece mais com o Texas - centrada na vida em comunidade, culinária e tradição. Tem sido uma experiência incrível.

Como foi trabalhar como advogado de artistas em Los Angeles?
Foi maravilhoso. Morei em Los Angeles e gosto daquela região. Eu era consultor jurídico do Screen Actors Guild, o maior sindicato de artistas de entretenimento dos Estados Unidos. Eu representava os profissionais quando produtores de filmes e programas de TV não cumpriam termos do acordo coletivo ou os contratos. Eu trabalhava com muitos estúdios em Hollywood. Havia cinco advogados no sindicato. Cada um tinha um estúdio designado. Os meus eram Viacom, Showtime, DreamWorks, CBS e Paramount.
O senhor teve contato com atores e atrizes famosos?
Sim. Na maioria dos casos, os atores bem conhecidos eram pagos, enquanto os menos conhecidos, às vezes, não eram. Assim, meus clientes geralmente eram atores em atividade, figurantes e dublês - artistas que frequentemente enfrentavam desafios relacionados a salário ou a condições de trabalho.
O senhor já tinha contato com a indústria do cinema antes?
Sim, fiz minha graduação em conservatório de artes cênicas em Nova York. Mais tarde, em Los Angeles, no final dos anos 90, participei de uma série de televisão em Los Angeles. Depois, quando voltei para Nova York, morei no sul de Manhattan e vivenciei o 11 de Setembro de muito perto, o que me inspirou a estudar Direito para que eu pudesse servir meu país. Durante a faculdade de Direito, passei um tempo na Universidade de Cambridge estudando direito internacional do entretenimento, onde fiz contato com advogados do Screen Actors Guild. Também fiz um estágio na Producers Guild of America em Beverly Hills. Depois de me formar, fui morar em Los Angeles, passei na prova da Ordem dos Advogados e me tornei advogado da área de entretenimento. Minha paixão por cinema e televisão sempre foi forte, mas, no final, meu desejo de servir o meu país me levou a ingressar no serviço diplomático.

Como tem sido sua carreira diplomática?
Minha primeira missão foi em Israel. Fiz um ano de hebraico, depois dois anos em Israel. Depois, estive em Washington, no Departamento de África, em seguida, no Afeganistão, em Cabul, por um ano, e, depois, em Washington por um ano, na África do Sul, em Joanesburgo, por dois anos. Depois fui para Karachi. E, na sequência, São Paulo.
Como foi a experiência em Cabul?
Foi de 2014 a 2015. É um lugar muito difícil. Eu estava lá quando o presidente Ashraf Ghani se tornou o primeiro e o último democrata eleito. Grande parte do foco estava na segurança: em como o Talibã reagiria depois que ele assumisse o poder. A situação era extrema. Tivemos muitos ataques. Mas, em termos das políticas que estávamos implementando, o trabalho era interessante. Eu tinha uma equipe incrível de americanos e afegãos. Eu era o chefe da seção de cultura e educação. Consegui trabalhar por meio de nossos programas de intercâmbio acadêmico, profissional e cultural, e com a imprensa para promover nossos objetivos políticos em circunstâncias difíceis em termos de segurança.
E Karachi?
A situação de segurança não era nem de perto tão ruim quanto em Cabul. Havia uma parceria muito próxima com os militares e a polícia. Tivemos uma experiência muito boa. A comida sul-asiática e as pessoas são simplesmente incríveis.
E, agora, em Porto Alegre?
Eu estava em São Paulo quando ocorreram as enchentes. Assisti a tudo de lá. Fiquei muito preocupado por ter amigos gaúchos e americanos que estavam aqui. Quando cheguei, já havia se passado quatro meses. Fiquei imediatamente impressionado com o que as autoridades do estado, da cidade, e empresas fizeram para apoiar a reconstrução do Rio Grande do Sul e para se prepararem para futuras para crises. Nesse curto período de tempo, foi incrível. Foi ótimo ver isso. Minha impressão sobre o povo gaúcho foi de que é uma comunidade forte, com uma cultura e tradições muito únicas. Adoro chimarrão e churrasco. Então, realmente abracei toda a culinária. Adoro assistir aos jogos do Grêmio e do Internacional. Claro, não tomo partido, porque sou diplomata. Tenho minhas opiniões, mas, de modo geral, admiro o espírito de resiliência e independência do povo gaúcho, aspecto que vejo como em comum com os Estados Unidos. Eu nunca recusaria um pastel no Mercado Público e adoro passear pelo Centro Histórico. Gosto de andar pela Redenção, principalmente nos fins de semana, quando está cheio. Tem muitos cachorros, sabe? É tão seguro e bonito aqui. E a Orla do Guaíba, com seu pôr do sol, é um lugar lindo também. Gosto muito de Cidade Baixa. Acho que o bairro resume bem a combinação de tradição e história com a modernidade de Porto Alegre. Tem também a Fundação Iberê, há riqueza cultural.
Em abril, o programa IVLP proporcionou a ida de representantes do poder público e sociedade civil do RS aos EUA para conhecer estratégias de gestão de crises ambientais. Em 2005, os EUA enfrentaram uma grande catástrofe climática, o furacão Katrina. Há semelhanças? O que o senhor pensa sobre ambiente?
Desafios ambientais como esses estão se tornando mais comuns, e existem, sem dúvida, semelhanças entre o que vimos nos EUA e o que está acontecendo no Rio Grande do Sul. O grupo do Programa de Liderança para Visitantes Internacionais (IVLP), que você mencionou, visitou lugares como Nova Orleans, Asheville na Carolina do Norte e Louisville no Kentucky. Embora nem todas essas cidades estejam no litoral, elas enfrentaram sérios problemas com inundações e recuperação de desastres. Os participantes do IVLP aprenderam muito com especialistas americanos - como se preparar para desastres, como responder quando eles acontecem e como coordenar os esforços de reconstrução de forma estratégica. Eles trouxeram de volta muito conhecimento prático, e fizemos questão de manter os canais de comunicação abertos. Continuamos a convidá-los para eventos e a incentivar o contato contínuo com seus colegas americanos, para que possam seguir compartilhando experiências e melhores práticas. Esse tipo de intercâmbio é incrivelmente valioso. Ajuda tanto o Brasil quanto os EUA a fortalecerem suas abordagens para gerenciamento de crises e reconstrução, sendo um ótimo exemplo de como a cooperação internacional pode fazer uma diferença real.

Um dos eixos de retomada do RS após a enchente de 2024 do ponto de vista econômico é a inovação e tecnologia. A partir de sua experiência no South Summit 2025, o que observou como oportunidades para o RS nessa área?
Gostaria de começar dizendo que o Brasil tem a maior Câmara de Comércio Americana do mundo, e a presença aqui é bastante expressiva. Quando estive no South Summit, fiquei impressionado com a tecnologia e inovação. E um dos meus objetivos como cônsul-geral é facilitar parcerias entre nossos países em tecnologia, inovação e energia para ajudar a aumentar a segurança e a proteção do povo americano e do povo brasileiro.
A Embaixada dos EUA no Brasil divulgou um comunicado em junho segundo o qual o governo americano vai monitorar as redes sociais de quem solicitar visto para entrar no país na condição de estudante. O consulado já está implementando essa diretriz?
Eu diria aos seus leitores que, se estiverem interessados em solicitar um visto, acessem nosso site. Essa é a única fonte legítima de informações. Existem muitos sites falsos que tentam fazer com que as pessoas paguem para ajudá-las com seus vistos. Então, eu os encorajaria a consultar apenas o nosso site. E quando forem para a entrevista, sejam honestos e minuciosos. Ouçam atentamente as perguntas. Respondam às perguntas com honestidade e atenção aos detalhes. Essa é a melhor orientação que podemos dar. Esteja preparado para explicar o propósito da sua viagem.
E sobre as redes sociais? Estão verificando?
O Departamento de Estado leva a sério a segurança do nosso país, e isso se reflete no processo de vistos. Analisamos cuidadosamente todos os pedidos de vistos de estudante e intercâmbio (categorias F, M, J) em todo o mundo, incluindo checagens de presença on-line quando necessário, não se limitando a nenhum país ou região específica. A partir do dia 15 de dezembro, esse mesmo tipo de verificação também será realizado para pedidos de vistos de trabalho temporário (categoria H1B). Em cada caso, dedicamos o tempo necessário para garantir que solicitantes não representem risco à segurança, que atendam aos critérios do visto e que tenham a intenção de realizar apenas as atividades permitidas pela categoria de visto solicitada.
Os Estados Unidos e o Brasil têm um relacionamento econômico robusto e de longa data, construído sobre décadas de investimento mútuo e cooperação. O fato de que os EUA são a maior fonte de investimento direto no Brasil - e que o Rio Grande do Sul possui investimentos significativos nos Estados Unidos - evidencia a profundidade e a importância desses laços econômicos. No entanto, houve uma crise entre os dois países em função da questão tarifária. O senhor acredita que o pior já passou?
É verdade que enfrentamos desafios, incluindo discussões recentes em torno de tarifas. No entanto, vejo como positivo o diálogo contínuo entre o representante de Comércio dos EUA e o Itamaraty. Essas conversas ocorrem diretamente entre as nossas respectivas autoridades comerciais e, embora o consulado e a embaixada não estejam envolvidos diretamente nas negociações, acompanhamos de perto o seu progresso. Na minha perspectiva, ambos os países estão comprometidos em encontrar soluções construtivas e em manter uma trajetória positiva em nosso relacionamento econômico. Estou otimista de que, à medida que essas discussões continuarem, veremos mais avanços e que nossa parceria permanecerá forte e mutuamente benéfica.
O cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Kevin Murakami, afirmou na terça-feira que a relação bilateral, apesar das tensões recentes, voltou a seguir “em uma direção positiva”. Ele chegou a falar em inaugurar uma era de ouro entre os Estados Unidos e o Brasil. O senhor concorda?
Concordo com a avaliação do cônsul-geral Kevin Murakami. O relacionamento entre os Estados Unidos e o Brasil é construído sobre uma base de dois séculos de parceria e respeito mútuo. Os EUA foram um dos primeiros países a reconhecer a independência do Brasil, e nosso primeiro consulado no Rio Grande do Sul foi estabelecido na cidade de Rio Grande, em 1835. Desde então, nossos laços culturais e econômicos só se fortaleceram. Hoje, vejo nossa parceria não apenas durando, mas se expandindo. Ambos os países compartilham muitos valores e interesses, e estamos focados em aprofundar a cooperação em áreas como comércio e segurança. Apesar dos desafios ocasionais, a direção geral é positiva, e acredito que estamos entrando em uma nova era de colaboração e oportunidade. O espírito de amizade e propósito compartilhado entre nossas nações está mais forte do que nunca, e estou otimista sobre o que o futuro reserva para os Estados Unidos e o Brasil.
Na área da segurança pública, há um histórico de colaboração, em especial com relação ao combate de organizações criminosas transnacionais. Que oportunidades de cooperação vê, especialmente em relação ao combate ao narcotráfico?
Quando você olha para a agenda "America First", o foco é tornar a América mais segura, mais forte e mais próspera. E, inevitavelmente, isso torna o Brasil mais seguro, mais forte e mais próspero em virtude de nossas parcerias. Aumentamos drasticamente nossas parcerias com as Forças Armadas, a polícia e outros parceiros das forças de segurança em todo o Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, que faz parte do meu distrito consular. Em junho passado, realizamos um simpósio no consulado em Porto Alegre reunindo forças de segurança pública do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e oficiais do Serviço de Segurança Diplomática dos EUA e das Investigações de Segurança Interna dos EUA. O objetivo principal foi aumentar a conscientização e a colaboração em relação à ameaça representada pelas organizações criminosas transnacionais. Um dos focos é abordar a questão do crime organizado nos dois Estados.

