
Elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o documento “Desafios de Inteligência – Edição 2026”, divulgado nesta semana, antecipa cinco riscos à segurança do Brasil para o próximo ano: segurança do processo eleitoral, transição para a criptografia pós-quântica, ataques cibernéticos com agentes de inteligência artificial, reconfiguração das cadeias de suprimento globais e interferência externa por atores não estatais.
O trabalho envolveu analistas da Abin, especialistas de universidades, instituições de pesquisa e agências governamentais.
A análise parte da constatação de que o mundo enfrenta um período de profunda reconfiguração, impulsionado pela confluência de três transições globais interdependentes — climática, demográfica e tecnológica.
Toda a análise é muito relevante, mas a coluna destaca aqui um ponto fundamental: as eleições e a estabilidade democrática. A Abin vê riscos de deslegitimação do processo eleitoral, desinformação e manipulação tecnológica, interferência externa, polarização social e instrumentalização de crenças religiosas.
Esse caldo de fenômenos, no limite, pode ainda catalisar ações de extremismo, com riscos a eleitores, autoridades e infraestruturas críticas necessárias ao processo eleitoral.
"O extremismo, ao fornecer narrativas de deslegitimação do processo eleitoral, pode implicar ameaças concretas, como aquelas que culminaram nos eventos de 8 de janeiro de 2023 e que permanecem como risco para 2026", diz o texto.
Os principais desafios apontados para 2026
1 Segurança do processo eleitoral 2026
Ameaças nesse sentido incluem ações de deslegitimação do modelo eleitoral, campanhas de desinformação (com manipulação por meio de ferramentas tecnológicas), ações de interferência externa e aprofundamento da polarização social (com instrumentalização político-eleitoral de diversos segmentos da população), além da atuação do crime organizado e de potenciais ações de extremismo violento.
2 Transição para a criptografia pós-quântica
Embora ainda em desenvolvimento, computadores quânticos têm potencial para resolver classes específicas de problemas muito mais rapidamente que as máquinas usadas atualmente. Essa capacidade compromete, em particular, grande parte da criptografia de chaves públicas utilizada hoje, o que altera pressupostos de segurança em larga escala. Adversários podem armazenar hoje comunicações e dados protegidos pelos algoritmos atuais e decifrá-los no futuro, quando computadores quânticos possuírem capacidade computacional suficiente. Informações de longo prazo de sensibilidade — diplomacia, defesa, fontes e métodos de Inteligência, dados pessoais — permanecem valiosas por anos ou décadas.
3 Ataques cibernéticos autônomos com agentes de inteligência artificial
A transição de ferramentas de IA de meras facilitadoras de atividades cotidianas e/ou repetitivas para agentes ofensivos autônomos capazes de operar — planejar, executar e adaptar ataques sem intervenção humana contínua — estabelece um novo e perigoso paradigma de ameaça para setores estratégicos e infraestruturas críticas.
4 Reconfiguração das cadeias de suprimento globais
As cadeias globais de suprimentos, ou também cadeias globais de valor, constituem um dos elementos centrais da organização econômica contemporânea. Elas se caracterizam pela fragmentação internacional da produção em etapas dispersas geograficamente, coordenadas por grandes corporações transnacionais, de acordo com vantagens comparativas em custos, acesso a insumos e capacidades tecnológicas.
5 Interferência externa por atores não estatais
Como atores não estatais, mas ligados a territórios e estruturas legais, burocráticas e repressivas de natureza estatal, as big techs atuam tanto com interesses próprios quanto, em arranjos complexos, como vetores de influência de seus países-sede. O Brasil possui um mercado digital robusto, mas ainda busca maior autonomia no desenvolvimento, na produção e na implementação de tecnologias críticas para reduzir a dependência em relação a tecnologias, conhecimentos e inovações controlados por atores externos. Nesse contexto, a arquitetura de dependência tem nas big techs um de seus pilares, impondo-se ao Brasil um desafio multifacetado de soberania.





