
Localizada às margens da Baía do Marajó, a Ilha de Cotijuba fica próxima na área insular de Belém. Tudo aqui é Amazônia, mas é, na região das ilhas, que se mergulha na floresta. E em suas contradições. Chega-se na ilha apenas de maneira fluvial, com linhas de barco que saem diariamente da capital. Entre o novíssimo Terminal Hidroviário da Tamandaré, uma das obras da COP30, entregue pelo governo do Pará, e a ilha, são 45 minutos, se a maré estiver "amigável".
A coluna fez essa travessia de 22 quilômetros de paisagens naturais incríveis, a Amazônia viva, e vida ribeirinha, no sábado. Em Cotijuba, onde vivem cerca de 8 mil habitantes, os automóveis particulares são proibidos. O meio de transporte mais comum é a "motorrete", uma "charrete puxada por motocicleta".

Os primeiros habitantes da ilha foram os Tupinambá, que batizaram o lugar de Cotijuba, que significa “trilha dourada”.
Cotijuba guarda algumas das "contradições", que, nos fóruns internacionais, como a COP30, são colocadas pelos líderes como desafios ambientais e climáticos. Assim como a Amazônia é o tema mais falado nas COPs e menos conhecidos, o açaí provavelmente é a fruta mais apreciada do bioma mundo afora e menos conhecido.
Marinho Junior, 25 anos, planta e colhe açaí desde que se conhece por gente na fazenda da família em Cotijuba. Aprendeu com o pai, Manoel, que, além do açaí, exercia o trabalho de retirada do látex da seringueira, quando o Pará viveu o auge do segundo ciclo da borracha. Com destreza, usando uma folha do açaizeiro arrancado ali mesmo, faz uma "peconha", uma que forma um anel ou laço que se coloca em torno dos pés do trabalhador. Antes mesmo de dar tempo de começar a gravar, ele trepa na árvore e já está lá em cima, tamanha destreza. O acaizeiro pode chegar a 15 metros em seu terreno preferido, várzea fértil e sombreada.

- O alimento do paraense é 90% o açaí. Tem que ter açaí todo dia - diz Marinho, enquanto retira as frutas do cacho recém-cortado.
Ele também desconfia dos efeitos das mudanças climáticas na produção.
- O açaí está secando muito. Acho que tem a ver com o clima. O açaí geralmente não secava numa época como agora.
Depois de colhida no mato, a fruta é colocada em água morna, para amolecer. Em seguida, é feita limpeza e branqueamento. Amolecido já está pronto para tirar a poupa (batimento), que Marinho faz no ponto de venda, na estrada "Vai quem quer", que corta a ilha. No local, trabalham Regiane da Silva, 24 anos, e Milene Soares, 20 anos.
Durante a safra, de junho a janeiro, Marinho produz cerca de 10 mil latas de açaí. Cada uma, tem 22 litros. Hoje, o litro está custando R$ 14 ao consumidor final. Na entressafra, chegou a R$ 25. Aí está uma das contradições. Como o açaí virou commodity internacional e exportado para mais de 30 países, muitas vezes o produto ficou caro até para a comunidade, chegando a custar R$ 60 o litro.
Como tantos produtores de Cotijuba, Mauricio gostaria da ajuda do governo para comprar maquinário a fim de aumentar a renda. No passado, ele tinha tudo para operar, mas decidiu vender ou doar. Hoje, busca recomeçar.
- Se tiver nova oportunidade, agarro com toda a força - diz.
Apenas 5% de cada fruta é aproveitada. O resto é caroço (ou "toba"), o que, se mal manejado, vira um problema ambiental. Marinho utiliza o resto como adubo em sua própria propriedade. Mas nem sempre há uma destinação correta. Bairros da periferia de Belém, entre os anos 1960 e 1990, e ainda hoje, foram aterrados com caroço de açaí.
Atualmente, há pesquisas em andamento para reutilizar o caroço de açaí de forma sustentável, transformando-o em biocombustível, matéria-prima para cerâmica, cimento e pavimentação; e componente de substratos agrícolas.
Um estudo da organização Amazônia 2030, iniciativa do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, informa que o açaí vive um momento decisivo na Amazônia. Os pesquisadores Salo Coslovsky, Manuele Lima e Amanda Martins identificaram que a produção vive um crescimento acelerado, valorização e desafios.
O Brasil produziu 1,93 milhão de toneladas em 2023, com exportações de US$ 140 milhões (2024), aumento de 68% desde 2015. Forte demanda nacional e internacional.
O Pará concentra 80% da produção, mas também enfrenta riscos logísticos, trabalhistas e ambientais. Um deles diz respeito às condições de trabalho, com denúncias que ameaçam o acesso a mercados premium. Há ainda pressões ambientais ligadas à açaização de grandes áreas - é uma crítica ambiental e socioeconomica usada para descrever um processo em que vastas regiões da Amazônia passam a ser monoculturas voltadas à exportação de commodities, substituindo a diversidade ecológica e produtiva local por um modelo intensivo e mercantilizado.
Assim, o açaí, rei da Amazônia, carrega uma dupla face: é um exemplo de bioeconomia sustentável, mas também um alerta sobre os riscos da exploração descontrolada.




