
Não é simples resumir as decisões de uma COP, como o próprio presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, admitiu nos últimos dias. Tampouco é simples explicá-las.
Você deve estar se perguntando: afinal, depois de tanto ser falada, de tanto dinheiro gasto, a COP de Belém, afinal, valeu a pena? Foi um sucesso ou um fracasso?
Primeiro, livre-se dos rótulos de sucesso ou fracasso.
As COP são um desses eventos em que não se pode medir o resultado por essa métrica. Depende muito da sua lente, das expectativas criadas, do contexto histórico e do xadrez geopolítico atual.
Tente ver a metade do copo cheia ou a metade do copo vazia. A partir desse olhar, menos simplista do que "sucesso ou fracasso", é possível se chegar ao mais próximo de uma análise justa da COP de Belém. Veja alguns dados.
1 A COP da implementação
Essa alcunha foi colocada pelo presidente Lula e autoridades do governo federal. Afinal, 10 anos depois do Acordo de Paris, o mundo tem todas as ferramentas para implementar ações que evitem a elevação da temperatura da Terra acima de 1,5ºC. O documento final da COP30 não trouxe um "mapa do caminho", ou roteiro, ou plano de ação prático, que obrigue países - e nem poderia fazer isso - a implementar medidas de redução de emissões de gases poluentes.
2) As emissões de CO2
Falando em gases poluentes. A COP30 começou com cerca de 70 países tendo registrado junto à ONU suas NDCs, as contribuições nacionalmente determinadas. Grosso modo, as metas de cada país para reduzir emissões. Ao final, 122 nações haviam registrado as suas.
3) Participação popular
Foi a primeira COP em um país democrático, depois de três realizadas em nações autoritárias - Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão. A Green Zone foi espelho de diversidade e participação popular, com indígenas discursando ao lado de empresários. No ano que vem, a COP31 será na Turquia, de volta a um país autoritário, sob a batuta de Erdogan.
4) A infraestrutura de Belém
A capital do Pará tem problemas sérios de infraestrutura - há ratos pelas ruas e lixo nas calçadas. O governo do Estado e a prefeitura de Belém deram uma boa maquinada no cenário, tendo recebido milhões de reais para isso. As obras da COP30, como o Parque Linear, no entanto, não esconderam mazelas da falta de saneamento básico. A crise da hospedagem deixou muita gente de fora devido aos preços exorbitantes. Os ônibus circulares, gratuitos para participantes da COP, e que normalmente funcionaram em conferências como Dubai e Baku, demoravam demais em Belém. Táxi e transporte por aplicativo acabaram sendo os métodos mais usados pelos visitantes. Todos os percalços, entretanto, foram compensados pela gentileza e simpatia da população paraense. Se o governo desejava a COP da verdade, nesse aspecto ela se confirmou: as desigualdades de uma metrópole encravada no coração da Amazônia esteve, o tempo todo, combinada com a hospitalidade de Belém.
5) Números grandiosos
Para os que se interessam por números, aí vai: foi a segunda maior COP da história, atrás apenas da COP28, de Dubai. Foram 56.118 delegados inscritos. No total, 193 países mais a União Europeia inscreveram suas delegações. A maior delegação foi a brasileira, com 3.805 pessoas inscritas, seguida da China, Nigéria, Indonésia e República Democrática do Congo. Em 30 edições de COPs, pela primeira vez os EUA, segundo maior poluidor do mundo, não enviou ninguém. Foram 3.920 membros da mídia inscritos, entre jornalistas, cinegrafistas, fotógrafos, produtores e técnicos.
6) Mapa do caminho para fim dos combustíveis fósseis
Os combustíveis fósseis, você sabe, são responsáveis em grande parte pelo aquecimento do planeta, que provoca os eventos extremos, como enchentes e ondas de calor. Dez anos depois do Acordo de Paris, a primeira vez que o tema foi citado em um documento oficial da COP, foi em Dubai, em 2023: "transição para longe dos combustíveis fósseis". Em Baku (2024), nada foi dito sobre isso. E esse não era um tema mandatório da COP30, de Belém. Entretanto, desde a Cúpula dos Líderes, a partir de falas do presidente Lula, o tema da redução gradual de petróleo, gás e carvão, ganhou tração, a ponto de ser incluído no primeiro rascunho da conferência. O assunto recebeu a rejeição de países produtores e exportadores de petróleo e gás e, por isso, foi retirado do segundo rascunho de documento. Como todas as decisões da COP devem ser por consenso, ou seja, todas as partes precisam concordar, o tema não foi levado para o texto final. Isso frustrou ambientalistas e cientistas, porque sem um plano de ação para reduzir - ou eliminar - esse tipo de energia não será possível estancar o aquecimento global. Foi o principal item que gerou frustração em grande parte do público.
Saída à brasileira: como o Brasil exerce a presidência da COP até passar o mandato para a Turquia, em novembro do ano que vem, uma saída inventada pelos negociadores do país foi se comprometer em criar um grupo de especialistas, cientistas e organizações, a fim de estabelecer um plano de ação, com métricas claras, de como seria possível mudar a lógica da economia global, que hoje é baseada em combustíveis fósseis, em uma lastreada por energias renováveis. Não é mandatório. Seria uma proposta a ser levada à COP31.
7) Desmatamento
Para uma COP realizada na Amazônia, ficou ruim não ter, no documento final, nenhum item que estabeleça metas de redução do desmatamento. Mais uma vez, o Brasil atuou politicamente para tentar uma alternativa: na Cúpula dos Líderes, o governo federal propagandeou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que somou US$ 7 bilhões, com somas novas de Noruega, Alemanha, França e, em menor grau, Portugal.
8) Meta Global de Adaptação
Esse tema era central na COP. Foi aprovada, mas com uma lista menor de indicadores: caiu de cerca de cem para pouco mais de 60. Esses indicadores são formas simples de acompanhar se os países estão melhor preparados para a crise do clima (com alertas de emergência, obras contra enchentes, sistemas de prevenção). Esse tema conversa diretamente com o Rio Grande do Sul e Porto Alegre e sobre o que estamos fazendo para nos adaptarmos às mudanças climáticas e seus efeitos.
9) Financiamento climático
Esse era outro tema fundamental da COP30. Em Baku, ficou a sensação de frustração em relação aos US$ 300 bilhões que os países ricos deveriam dar aos pobres para financiar a transição. Eles não cumprem nem os US$ 100 bi anuais acertados pelo Acordo de Paris. Em Belém, ficou estabelecido que os países só devem “fazer esforços” para triplicar o financiamento de adaptação até 2035, mas sem dizer quem paga, quanto e de onde vem o dinheiro. Foi fraco.
10) Indígenas e questão de gênero
O pacote da COP30 trouxe, pela primeira vez, referências claras ao papel dos povos indígenas na proteção das florestas e na adaptação ao clima. Também foi acertado um plano que orienta a participação de mulheres e meninas nas decisões sobre clima. O documento reforça passos para ampliar essa presença em todos os níveis das negociações.





