
Sejamos sinceros, o Brasil levou um puxão de orelha da ONU.
Quando cheguei à área da COP30, na manhã desta quinta-feira (13), percebi que, em vez de dois portões abertos, havia apenas um no acesso ao prédio da Blue Zone, a área restrita às delegações e participantes credenciados. Logo atrás do totem, onde está escrito #COP30, um policial da ONU conversava, em inglês, com um agente à paisana e com um militar da Força Nacional de Segurança. Encerrada reunião, o militar deu ordens para a "rapaziada" que estava ao redor, fardada.
Passei direto, por dentro da Blue Zone, em direção à Green Zone, a área da sociedade civil, porque havia marcado uma entrevista. No corredor de um quilômetro que separa as duas áreas, mais um estranhamento: caminhonetes da Força Nacional, homens armados com escudo e capacete. Um oficial inclusive carregava uma arma antidrones, que eu havia visto só uma vezpessoalmente, no conclave recente, no Vaticano.
Militares do país anfitrião marchando dentro de uma área da COP eu nunca havia visto. Até porque é uma zona internacional. No Azerbaijão, na última conferência, havia excesso de militares nos arredores do Estádio Olímpico de Baku. A cada cinco metros, perfilados - e isso não é força de expressão. Mas, lá, entende-se, é um país autoritário. No Brasil, a primeira democracia a sediar uma COP desde Glasgow (COP26), a cena desta quinta-feira me impactou.
No final da tarde, entendi o movimento militar. Em carta dirigida ao ministro Rui Costa e ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, a ONU exigiu medidas extras de segurança, depois da tentativa de invasão, na terça-feira (11). E como reage um país de terceiro mundo, com histórico autoritário? Não é com inteligência, não é com dados, não é com observação. É com dissuasão. É com força militar, para impor medo.
A ONU também questionou, na carta, a infraestrutura - quando chove, e chove todos os dias à tarde, a lona da COP30 vaza em alguns locais. O ar-condicionado também não dá conta, e falta água em alguns banheiros.
A cena de estrangeiros abanando-se com leques já virou até meme nas redes sociais.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, disse que o protesto dos indígenas no segundo dia da COP30 "é importante, é democracia, a gente tem que ouvir todo mundo". O presidente da COP, ministro Corrêa do Lago afirmou que a questão dos problemas técnicos parecia ter sido "mitigado", que seria "um não problema agora".
A COP de Belém tem problemas sérios (e esse é tema para outra coluna, em breve). Há respeito pela cultura local, pelas desigualdades sociais da nação anfitriã, o que fica das conferências é o documento e a substância do debate, não os percalços, mas há padrões internacionais que não passam batido.
Os questionamentos da ONU vieram até que tardiamente. Mas o mundo não é bobo.






