
O clima mudou. E não falo das mudanças climáticas nem das condições do tempo em Belém. Refiro-me ao ambiente interno da Blue Zone, a área de decisões da COP30.
Negociadores foram dormir tarde nas primeiras horas da manhã desta quarta-feira (19), depois que os debates entraram madrugada adentro. Havia otimismo no ar a partir do primeiro rascunho de texto final, no qual estava incluída a redução gradual do uso de combustíveis fósseis, exatamente como desejam ambientalistas e parte do governo Lula, em especial o grupo ligado a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente. O texto também recebeu o apoio de mais de 80 países.
O problema é que o grupo dos oposicionistas, liderado pela Arábia Saudita (sempre ela), entrou em campo - e considera inegociável a questão.
Espera-se nesta quarta-feira (19) um novo rascunho, provavelmente menos ambicioso. É do jogo da negociação, mas todos baixaram as expectativas por aqui.
O termo "redução gradual de uso" de fósseis é diferente de "transição para longe", presente no documento da COP28. Seria mais ambicioso.
Nos bastidores, surgiu a ideia de se separar o tema para debate em outro fórum, um encontro político a ser realizado no futuro, fora do ambiente da COP. O risco é que isso desidrataria o texto final da conferência de Belém, cujo documento não faria referência a combustíveis fósseis ("a COP flopou", cheguei a ouvr de uma parte). E, pior, poderia representar o golpe de morte nas COPs e no sistema multilateral. A ONU, que já não consegue evitar guerras, foi questionada diante da pandemia, provaria, para os críticos, sua ineficiência ao não conseguir consenso sobre mudanças climáticas.
Para o Brasil, a COP30 não seria nem a "COP da implementação" (como desejava o governo), porque não implementaria nada. Nem seria a COP do multilateralismo.
Paralelamente às negociações, há um outro enfrentamento - entre Turquia e Austrália pela sede da COP31. Nos bastidores, ouvi que o país da Oceania estaria prestes a jogar a toalha. Trouxe uma delegação pequena e estrutura menor. A Turquia, ao contrário, vem fazendo forte lobby - tem grande estrutura e delegação.
Se a COP do ano que vem se confirmar em território turco, a sede não seria nem Ancara, a capital, nem Istambul, sua cidade mais conhecida. Seria em Antalya, um balneário do Mediterrâneo, que o governo pretende alavancar como turístico, a exemplo do que o Egito fez ao realizar a COP27 em Sharm el-Sheikh.


