
Ah, o ser humano sempre tentando classificar grupos, etiquetar países e pessoas, em geral tomando como base sua orientação política ou ideológica.
Taxar alguém como de direita ou esquerda empurra naquela pessoa uma carga ideológica, como um bloco monolítico de opiniões, que, em geral empobrece ou minimiza do ponto de vista intelectual aquela que é alvo do rótulo.
Pode ser com pessoas. Mas também com países.
É isso que Donald Trump faz ao ameaçar proibir a entrada de "pessoas do Terceiro Mundo" nos Estados Unidos, depois que foi identificado um afegão como um dos responsáveis pelo ataque a homens da Guarda Nacional.
Ainda que o presidente ignore o significado de "Terceiro Mundo", sabemos o que ele quis dizer quando colocou no mesmo saco nações pobres, por vezes miseráveis, em guerra, em geral de maioria muçulmana, ou que não abraçam a ideologia do ora inquilino da Casa Branca.
Trump fala de Afeganistão, Irã, Líbia, Somália, Sudão, Iêmen, Cuba, Venezuela, todos países, aliás, dos quais seus cidadãos estão proibidos de entrar nos EUA.
Ressalte-se: classificações não são um problema de Trump, mas da ciência positivista. São excludentes e simplistas.
A expressão "Terceiro Mundo" surgiu quando, no auge da Guerra Fria, o planeta estava dividido econômica e ideologicamente em dois polos de poder: o bloco capitalista ("Primeiro Mundo") e o socialista ("Segundo Mundo").
Quem não se enquadrava em um ou outro lado, era... Terceiro Mundo.
A expressão foi cunhada pelo demógrafo francês Anlfred Sauvy em 1952 na revista L'Observateur. Em 1955, com a Conferência da Bandung, surgiu outro tema semelhante para definir o movimento ou bloco de países "não alinhados".
O grupo reunia países recém-independentes que exigiam descolonização, assistência ao desenvolvimento e maior voz nas instituições globais. Buscavam neutralidade em matéria de alianças militares que não obedecessem à lógica bipolar. O Brasil foi "Terceiro Mundo" e foi "Não alinhado".
Hoje, é obsoleto usar as duas expressões. Primeiro porque é muito difícil ser alinhado com algum conceito ideológico nessa geléia de conceitos. Segundo porqueo Segundo Mundo (bloco soviético) deixou de existir.
Passou-se a chamar países em desenvolvimento, o que, daqui um tempo, também será um termo vencido. Ou você ainda classificaria a China, segunda maior potência econômica do planeta, como um país em desenvolvimento?
Mais recentemente, outra classificação comum é Sul Global, que volta e meia o Brasil advoga liderança. Também é uma expressão, senão com prazo de validade, com risco de imprecisão geográfica: o que explica a Rússia inserida no chamado Sul Global?
A despeito de idiossincrasias eventuais, a frase de Trump releva preconceito, um uso ideológico da expressão para caracterizar cidadãos que, em sua visão, seriam de segunda classe.



