
Natural de São Gabriel, Liliam Chagas de Moura, diretora do Departamento de Clima do Itamaraty, é uma das principais negociadoras do Brasil na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30).
A embaixadora conversou na manhã desta quarta-feira (12) em uma sala de reuniões bilaterais, na Blue Zone, sobre as perspectivas para acordos na conferência de Belém, sobre a necessidade de se continuar acreditando em limitar o aquecimento global a 1,5ºC e sobre o fundo de perdas e danos.
Leia a íntegra da conversa:
A COP30 começou com um clima de otimismo em razão do acerto da agenda, o que evita atrasos e entraves a partir de novas propostas. Esse otimismo continua no segundo dia? Que avaliação a senhora faz dos debates até agora?
Sim, estou super otimista. O primeiro passo, que é a agenda, nas últimas duas COPs, atrasou um pouco em função de quais temas temas seriam propostos. O problema são os novos temas, que os países querem trazer. Nesse ano, em função dos itens que foram apresentados de última hora, havia sete novos temas. Nós passamos, então, todo domingo (9) negociando como tratá-los e achamos uma solução relativamente cedo. Foi possível abrir a COP no horário. No dia 10, não só no horário, mas com ânimo: "Temos agenda, não é um ambiente conflitivo, é um ambiente de cooperação, vamos começar os trabalhos". Como no primeiro dia houve a plenária, com a participação do presidente, as salas negociadoras só foram abertas mesmo ontem (terça-feira, 11). Então, hoje (quarta-feira) é o segundo dia, na prática. Apesar de alguns probleminhas de excesso de ruído nas salas, que faz com que, às vezes, tenhamos de trocar de ambiente, isso não está atrapalhando as negociações em si. São muitos temas para que se tenha acordo e precisa-se de muitas reuniões. E elas começaram, então, com o pé direito, começaram bem. Então, hoje vamos para o segundo dia dos grupos negociadores. Estou otimista. Como são duas semanas de negociações, é normal que os temas avancem mais rápido, mas, depois, recuem, eventualmente. Isso é da dinâmica. Agora, temos de negociar e entrar em acordo sobre sete temas super importantes.
Quais os principais?
Um dos principais são mandatos, são encomendas que o processo diz: "Olha, em novembro de 2025, devem ser acordados os indicadores para adaptação. São decisões anteriores que encomendam resultados para essa COP. E são coisas que vêm acontecendo no último ano, para que, aqui, se culmine e se tome a decisão. É difícil? É, porque são muitas partes, quase 200 países e é regra de consenso. Mas é isso, para manter esse processo vivo e deixando que todos os mecanismos, as ferramentas e fundos que foram criados, sejam aperfeiçoados, é preciso que essas decisões sejam tomadas.
Mas quando o presidente Lula fala que essa é a COP da implementação, porque todos os mecanismos, já estão aí, não significa que tudo esteja pronto para a ação?
O Acordo de Paris completou agora 10 anos em 2025. Nesses 10 anos, foi regulamentado. É como uma Constituição, que precisa das leis para ser regulamentado. Foi isso que terminou em 2024: a regulamentação dos artigos do Acordo de Paris para que ele pudesse ficar operacional. Então, esse trabalho de definir as regras de funcionamento, na sua grande maioria, ele já terminou na última COP. Essa é a primeira COP que temos o ciclo de políticas do acordo em funcionamento completo. Então, os países estão no segundo ciclo das suas políticas climáticas. A segunda leva de NDCs (metas que cada país estabelece para corte de suas emissões de gases de efeito estufa) apareceu esse ano. A grande maioria apresentou seus relatórios de transparência. Eles informam as suas emissões dos últimos anos e os planos nacionais de adaptação também. As ferramentas, as obrigações dos países em função do Acordo de Paris, estão completas, todos já têm como fazer, sabem como fazer e a grande maioria já entregou. Isso aí que completou, é a primeira COP em que temos a fotografia completa. O que nós estamos decidindo aqui é como continuar, por isso se fala também que essa é a COP da virada. Essa chave tem de ser virada, porque já regulamentamos, já acordamos como as coisas vão funcionar. Os mercados de carbono já tem as regras para funcionar. Agora precisamos ver a próxima etapa. E ir ajustando as ferramentas. Por isso, que essa é a COP da virada, a COP da implementação e a COP da verdade.
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A questão do limite de 1,5ºC ainda é possível, na sua opinião? O próprio secretário-geral da ONU admite que o mundo ultrapassará esse número
Esse é um processo no qual os países definem o que fazer. Ele é baseado na vontade dos países, mas é baseado na ciência também. Então tem um braço científico, que é o IPCC. O que a ciência diz: 2024 foi o primeiro ano em que consecutivamente tivemos 12 meses acima de 1,5ºC. Mas isso não significa que 1,5ºC esteja perdido. Pode voltar. Os países têm que reduzir emissões de gases poluentes que causam aquecimento global, e as emissões têm que ser reduzidas, e aumentadas as tecnologias para capturar o dióxido de carbono ou então aumentar os chamados sumidouros naturais: florestas tropicais, oceanos, que absorvem esse dióxido de carbono e ajudam no resfriamento do clima. Reflorestamento, manter as florestas, isso tudo vai ajudar a voltar. Nós já passamos 12 meses consecutivos, passamos de 1,5ºC, mas é possível voltar. Não tem saída a não ser diminuir a emissão de gases poluentes e aumentar os sumidores
Como gaúcha, sabendo tudo o que o RS viveu, como é ser uma das principais negociadoras do Brasil na COP no seu país?
O que se constrói aqui são as ferramentas para os países evitarem esse problema. E se o evento acontecer, como aconteceu no Rio Grande do Sul, estarem mais preparados. Acho que me dá mais ânimo para aperfeiçoar essas ferramentas. O que aconteceu no RS está ajudando as comunidades, as prefeituras, a ter mais consciência sobre a importância da adaptação: como construir pontes, onde planejar colocar os novos bairros, como as escolas podem ser reformadas ou construídas de uma forma que elas não vão desaparecer na primeira água. Eu tenho visto projetos de escolas, cidades mais resilientes. Por exemplo, o ginásio das crianças não sendo construído no térreo, sendo em um andar acima, porque ele também pode servir de abrigo numa catástrofe. Esse tipo de coisa que estamos tendo de se adaptar à força, pela força das águas. Mas esse tipo de ferramentas e de práticas e de experiências que saem desse processo da ONU, do regime do clima, fica evidente que tem uma aplicabilidade na vida real das pessoas. Então, ele serve. Além disso, tem os fundos climáticos. Tem muito recurso já disponível para prefeituras e associações. E essa COP aqui está lançando uma novidade, que é o mais novo fundo do clima, o Fundo para Responder por Perdas e Danos. É aquela última etapa da mudança do clima. Depois que você já fez tudo o que tinha que fazer, mas sofreu, como o RS. Então, ele vai ser uma rápida alocação de recurso para compensar perdas no terreno. Esse fundo já existe há três anos, mas foi colocado em funcionamento nos últimos dois anos e a primeira chamada para recursos foi lançada aqui, na segunda-feira, no dia da abertura. Esse processo tem que chegar mais na ponta e as pessoas saberem que tem para onde recorrer.













































































