
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Entre os assuntos que foram tratados durante as negociações da COP30, em Belém (PA), foi a atenção aos oceanos. Contudo, na avaliação da presidente da Sea Shepherd Brasil, Nathalie Gil, o tema ainda está aquém do esperado.
Ela conversou com a coluna, durante a conferência de Belém, sobre o assunto e a importância da pauta nas políticas ambientais.
Por que colocar os oceanos no centro da pauta climática? É algo novo dentro das COPs?
É algo que, sem dúvida, teve uma evolução. Ainda é insatisfatório, pelo nível que o oceano deve ter na mesa da COP. Por que é importante? Estamos aprendendo cada vez mais o quanto é essencial todos os serviços ecossistêmicos do oceano para enfrentarmos a mudança climática. O oceano é responsável, por exemplo, por mais de um quarto da absorção de dióxido de carbono equivalente da atmosfera. Isso ele faz por causa de toda a sua biodiversidade, que, de maneira interdependente, sequestra esse carbono da atmosfera. O oceano também é vital para, por exemplo, todo o controle térmico, hídrico e até da própria biodiversidade da Terra. Tem essa função de regular correntes, regular o clima em várias partes do mundo. A própria Amazônia é do jeito que é e os nossos biomas e padrões térmicos são do jeito que são porque o oceano tem essa função vital para o controle climático. Enquanto estamos aqui falando sobre como encontrar soluções de sequestro de carbono ou de menor emissão de carbono nas nossas cadeias de produção e descarte, se fala pouco sobre como manter os sistemas naturais de equilíbrio climático, sendo o oceano o maior deles. E é isso que pedimos na nossa presença na COP: que se tenha como centro da conversa "Como podemos tomar medidas ambiciosas para o oceano continuar operando com essas grandes funções ecossistêmicas para o equilíbrio climático?".
Você falou no começo que o debate ainda é insatisfatório. Em que sentido?
Vou começar primeiro pelas NDCs: ainda não há menções a soluções de adaptação ou de mitigação focada no oceano. E isso é o que pedimos, não só os países costeiros, mas os não costeiros também. Por exemplo, soluções que impactam o oceano são soluções de como estamos resolvendo os nossos resíduos, de como estamos resolvendo a nossa cadeia de produção de uma maneira que também não tenhamos o uso excessivo de animais marinhos na nossa cadeia alimentar, ou mesmo o uso de animais marinhos para produção de cosméticos. O consumo de animais marinhos, do jeito que ele é feito hoje: temos mais de 100 milhões de toneladas de vida marinha sendo retirada do mar para ser consumida, e isso só tem aumentado o consumo de animais marinhos ano a ano. Isso diretamente afeta o oceano, porque é como se estivéssemos tirando partes de uma grande máquina da qual dependemos para sobreviver. Estamos em um momento em que o oceano está enfrentando outros desafios enormes, como o aquecimento das suas águas, que está aumentando ano a ano. Temos o problema da desaceleração de correntes; agora os cientistas estão preocupados com a possibilidade de uma dessas correntes parar, se estagnar, e isso afeta todo o controle climático da região. Também temos o fator da acidificação do oceano, que está afetando os corais de uma maneira avassaladora. Passamos pelo primeiro ponto de não retorno, que é o branqueamento de corais. Estamos num cenário em que o oceano, que é o nosso maior aliado no combate às mudanças climáticas, está sofrendo desafios cada vez maiores, mais intensos e despejamos no oceano quantidades cada vez mais avassaladoras de químicos, tóxicos e também plásticos. Estamos, na verdade, com o oceano começando a ser debatido na COP, quando ele deveria ser o assunto principal, se não um dos mais importantes a serem debatidos para realmente conseguir reverter o desastre climático.
As medidas de mitigação deveriam ser políticas públicas ou a sociedade também pode contribuir?
No nível da COP, certamente, as negociações de governo são essenciais para isso. Nós temos avançado em outras conversas que não são dentro da COP, em relação a, por exemplo, finalmente termos um acordo, um tratado de alto mar entre países, que começamos a ter regras fora das águas de jurisdição de cada país. Isso é um avanço no papel. Vamos ver se agora ele vai ser um avanço também na prática. Isso foi anunciado na conferência do Oceano da ONU em junho. Temos que ter nas NDCs dos países práticas de mitigação e de adaptação. Uma delas é, por exemplo, garantir que, no mínimo, 30% do oceano seja protegido. O Brasil costuma falar que tem 26% das suas áreas marinhas protegidas. Na verdade, a vasta maioria dessas áreas marinhas que são ditas protegidas tem um nível de proteção parcial, como áreas de proteção ambiental, como reservas extrativistas, áreas que, portanto, permitem o uso do oceano, seja para extração ou seja para exploração. O que defendemos é que as áreas marinhas protegidas devem ter proteção integral, quando falamos de 30%, que elas tenham completa proteção. Hoje, no Brasil, menos de 4% têm essa característica. É muito pequeno perto do que os países estão acordando, como o mínimo de áreas marinhas de proteção, que são 30%, no mínimo. Estamos bem aquém. Inclusive, uma mensagem que fizemos questão de deixar na COP, como uma maneira de conscientizar e pressionar o nosso governo em relação a isso, foi em parceria com a aliança que está se formando agora, a SOS Oceano, uma aliança de diversas ONGs de proteção do oceano, que "Sem azul, não há verde". Não podemos só focar em soluções ecossistêmicas na floresta ou em áreas terrestres, sem também focar nas soluções ecossistêmicas no ambiente marinho. Tudo o que a gente pode fazer para proteger a Amazônia, Pantanal, o bioma dos Pampas, da Caatinga, do Cerrado, da Mata Atlântica, mas se o oceano colapsar, vamos colapsar toda a cadeia natural da Terra, do planeta como um todo. Estamos caminhando, na verdade, não para um grande elefante branco, mas para um grande elefante azul na sala, que é o oceano. Somos um planeta de água, e somos 70% água também dentro de nós. No nível do indivíduo, temos que caminhar a grandes passos em direção a nos reconectar ao oceano. Viramos a sociedade de costas para ele. Canalizamos nossas águas, despejamos tudo que achamos que é poluente, que não deve estar na área terrestre, então jogamos no oceano, porque o oceano é abundante, é infinito. Ou retiramos do oceano com cada vez mais tecnologias avançadas, com cada vez mais predação. Estamos tratando o oceano como a coisa mais banal, achando que sempre ele vai segurar para a gente, só que ele já está mostrando que não. Já vemos os dados dos corais: 50% afetados, 30% dos manguezais já afetados também. Corais e manguezais, lembrando que eles são grandes berçários para toda a vida no mar, mas também terrestre. E reverter a nossa relação com o consumo de animais marinhos. Temos de pensar em uma moratória da pesca industrial, combater a pesca intensiva, principalmente a ilegal, que hoje representa um quinto no mundo. E parar de falar que peixe é um animal que emite menos carbono e, portanto, vamos consumir mais peixe, porque não é verdade. Estamos só vendo carbono e não enxergando todo o papel vital da biodiversidade marinha para o oceano continuar nos ajudando a combater o desastre climático.
Foi lançado na COP um plano de ação para acelerar soluções baseadas no oceano que pode ajudar a reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa em até 35% até 2050. Como avalia esse plano?
Não vi o plano como um todo, mas são projetos que estão tendo a intenção da revitalização desses ambientes e, claro, que eu apoio muito esses projetos. Mas vamos ver na prática, porque o Brasil tende a ter muitas ambições nas leis, nas normas e no papel. Mas na aplicação, falhamos muito. O governo falha muito na entrega. Eu espero mesmo que eles financiem projetos sérios de pesquisa, de revitalização dessas áreas. Eu sei que a Marina Silva anunciou também que ela quer alcançar os 30% de proteção, só que a nossa crítica é essa. Temos de olhar para 30% de proteção integral. Na verdade, temos que observar como está sendo discutido, por exemplo, na Polinésia Francesa, que eles protegem 100% das suas áreas e com 30% de proteção integral. Temos de nos inspirar em países como a Costa Rica, como o Reino Unido, que fecharam suas águas para a exploração de petróleo, que é algo que mostra que estão realmente comprometido com o carbono zero, comprometido em criar uma jornada para um mundo sem combustíveis fósseis. Não deveríamos estar discutindo explorar novas áreas para combustíveis, nem que seja para pesquisa, porque se for para pesquisa, estamos falando que essa área começará a ser explorada em anos. Não temos mais tempo de ficar discutindo exploração de combustíveis fósseis offshore. Não só porque offshore tem o perigo do vazamento, o que tem todo um impacto direto no oceano, mas também um impacto indireto, já que sabemos que mais emissões de carbono significam mais estresse para o oceano, que já está a caminho do colapso.


