
Menos um dia. E assim o tempo da COP30 vai se escorrendo pelas mãos dos negociadores. Faltam quatro dias e meio para uma acordo, até sexta-feira, último dia da conferência.
A segunda semana da COP é sempre a fase mais política, quando ministros retornam e os presidentes da mesa tentam destravar impasses. Na COP e Belém, o risco central é que o evento termine sem um sinal político claro de implementação — justamente o que o Brasil mais quer entregar. A segunda semana é definida por três eixos: financiamento (ou seja $), que acaba sendo o gatilho para todos os outros acordos: adaptação, a marca que o Brasil quer deixar, e alguma sinalização sobre afastamento de combustíveis fósseis, que é onde a COP pode avançar ou naufragar simbolicamente.
Se o Brasil conseguir costurar financiamento mínimo, destravar o GGA (Objetivo Global de Adaptação) e preservar a linguagem de Dubai (afastar-se dos combustíveis fósseis), a COP30 termina com entrega política suficiente para ser chamada de sucesso.
Como, individualmente, cada país acaba sendo mais fraco, é comum a formação de grupos. Veja como se articulam e seus interesses.
Brasil
É o presidente da COP30 e mediador entre blocos. Tem buscado manter uma posição de árbitro - ou seja, neutra para garantir credibilidade internacional. O Brasil precisa demonstrar equilíbrio, capacidade técnica e escuta. Ao mesmo tempo, busca impor, nos bastidores, sua agenda por adaptação como prioridade, com foco em 100 indicadores, principalmente após episódios catastróficos como a enchente no RS, em 2024.
G77 + CHINA
É o maior bloco de países em desenvolvimento (135). Quer mais financiamento climático, mas deseja indicadores de adaptação voluntários. Rejeitam obrigações sem dinheiro. Aponta a responsabilidade histórica dos países ricos e defendem que o caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis deve ser financiado.
União Europeia
Normalmente é o bloco com maior ambição climática, entretanto resiste a pagar mais — especialmente em um contexto de recessão, crise energética e guerra entre Rússia e Ucrânia. Quer dividir responsabilidade com China e países emergentes. Prefere poucos indicadores de adaptação, porém claros e aplicáveis. Defende eliminação acelerada dos combustíveis fósseis. A UE argumenta que China, Índia e petromonarquias do Golfo também devem pagar a conta.
Países africanos
É um bloco que tem ocupado cada vez mais espaço nas COPs. O continente vai sediar a COP32 (na Etiópia, em 2027). Mantém uma pressão forte por financiamento por parte dos ricos para adaptação, mas vem buscando atrasar acordos sobre indexadores - sem dinheiro, diz que não tem como se adaptar. A África é a região menos emissora e mais vulnerável a eventos extremos. Muitos países enfrentam dívidas externas altas — o que limita investimento. Países que dependem do petróleo, como Nigéria e Angola, são mais conservadores em fósseis.
Países-ilhas
São as pequenas nações do Pacífico, sob risco de desaparecerem com a elevação do mar. Exigem acordo imediato sobre adaptação e financiamento (dependem totalmente de dinheiro externo). Querem metas claras e aplicáveis. Também exigem eliminação rápida dos combustíveis fósseis.
Arábia Saudita
Maior potência produtora e exportadora de peteóleo do Oriente Médio, busca bloquear as negociações nas COPs. Rejeita novas obrigações financeiras e resistência totalmente a qualquer frase sobre afastamento dos combustíveis fósseis ou o chamado phase-out (suspensão do uso). Atua como líder informal de outros petroestados.
Umbrella Group
São países ricos, fora da UE - normalmente incluem os EUA, mas, com Donald Trump, no poder, obviamente, os americanos não estão neste debate. Estão sob o "guarda-chuva", Reino Unido, Canadá, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Noruega e outros. Sao conservadores no financiamento e resistem a novos compromissos porque estão em envolvidos, de forma geral, em crises fiscais e elevação de gastos com defesa, aqueles envolvidos com a Otan.
High Ambition Coalition
Criada pelas Ilhas Marshall, reúne países-ilhas, UE, Chile, Colômbia e Ruanda. É uma espécie de bloco progressista da COP, empurrando a ambição climática para cima. Exige alto financiamento climática, adaptação acelerada e eliminação rápida dos combustíveis fósseis Costuma pressiona China, Índia e países do Golfo.
Like-Minded Developing Countries
Na outra ponta, esses países formam um bloco duro contra metas ambiciosas. Estão aqui China, Índia, Egito, Indonésia, Bolívia, Arábia Saudita e outros. São contrários a novas obrigações financeiras para emergentes, conservadores em indicadores de adaptação e se opõem em acelerar a transição energética. O motivo: alta dependência de petróleo, carvão e gás. Argumentam que desenvolvimento vem antes do clima.






