
Desde antes desta cobertura da COP30 começar, tenho dito que, se tudo der errado, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas, já terá cumprido o seu papel de revelar ao mundo o tema mais comentado nos eventos sobre ambiente e menos conhecido de verdade: a Floresta Amazônica, um dos principais motores climáticos do planeta.
Belém tem oportunizado essa experiência em vários sentidos: seja nas ruas, seja nas imersões culturais organizadas a Ilha do Combu ou a que fiz por conta própria, em Cotijuba, nos banhos de rio, nas ervas, nos saberes que estão por toda parte.
Mas quem deseja um rápido aprendizado sobre a maior floresta tropical do mundo tem essa chance ao visitar o Museu das Amazônias, onde estão exibidas imagens do maior de todos os fotógrafos brasileiros, Sebastião Salgado.
Estive ali no reformado Porto Futuro, no sábado, e pude entender, com profundidade, a razão de Amazônia ser tão importante para o mundo. Na verdade, a gente sempre aprendeu isso nos livros escolas, nas reportagens, nas experiências de viagens, mas o que Salgado faz é tocar, com seu preto-e-branco nevrálgico, os sentimentos. Imensidão, urgência, finitude do humano foram sensações que me afligiram de imediato.
O primeiro ponto a entender é: por que o Museu se chama das Amazônias? Afinal, não é uma floresta só? Não, e aí, você começa a desconstruir tudo: não é homogênea, contínua ou igual em toda a sua extensão.
O termo no plural reconhece que a região é formada por vários territórios, realidades, povos, ecossistemas e dinâmicas socioeconômicas diferentes.
Para além das fronteiras geográficas (a Amazônia está, além do Brasil, em oito países. Mas tem Amazônia urbana (Belém e Manaus são metrópoles de milhões de habitantes), há a Amazônia das hidrelétricas, da mineração (Carajás, garimpo), da fronteira do desmatamento, das ilhas e dos rios , do açaí e da bioeconomia. Há também a Amazônia preservada, desmatada, em regeneração, urbanizada.
Um dos grandes aprendizados na exposição, aparece nas sombras das fotos do grande Salgado: a evaporação a partir da floresta, as nuvens, os rios voadores.
As árvores gigantes, como a sumaúma, lançam na atmosfera toneladas de água por dia, que alimentam o sistema dos rios voadores que irrigam o Centro-Oeste e o sul do Brasil e sustentam a economia agrícola.
Salgado nos deixou em maio deste ano, a tão poucos meses da COP30. Logo ele que tanto conheceu a floresta e teria tanto a nos dizer. Ou melhor, mostrar. Mostrou. Seu legado está aqui, vivo. E mudando mentes.





