
Os ornamentos iluminados nos postes da Avenida Presidente Vargas, entre a Estação das Docas e a Praça da República, podem enganar quem passa: à primeira vista, parecem uma recepção luminosa aos visitantes da COP30. Mas não — são resquícios do Círio de Nazaré, festa que tomou conta de Belém durante todo o mês de outubro e que, sem dúvida, desperta muito mais paixão na cidade do que a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que começa na próxima segunda-feira (10).
Belém, no entanto, não está alheia ao evento. Os investimentos realizados nos últimos anos são visíveis: o novo Parque da Cidade, sede da conferência; a revitalização da área portuária, com o Porto Futuro II; o Parque Linear Tamandaré — um exemplo inspirador do que poderia ser feito na Avenida Ipiranga —, além de viadutos, novas vias e obras de macrodrenagem. Diferentemente de Dubai, que sediou a COP28 na estrutura já pronta da Expo City (remanescente da Expo 2020), ou de Baku, que aproveitou o Estádio Olímpico para a COP29, Belém precisou começar praticamente do zero. Daí o colossal investimento de cerca de R$ 5 bilhões, somando recursos federais, estaduais e municipais.

Mas Belém não é Dubai nem Baku. É Brasil.
Na véspera da Cúpula dos Líderes, que começa nesta quinta-feira (6) no mesmo espaço da COP30, ainda há tapumes, operários e correria. Parece improvável que tudo esteja pronto para segunda (10), quando a conferência será oficialmente aberta — e menos ainda para quinta (6), quando o presidente Lula receberá chefes de Estado e de governo numa espécie de pré-COP, que deve definir o tom dos debates.
Na Avenida Presidente Vargas, sob o sol de 29 °C desta quarta-feira, um menino troca de roupa na calçada enquanto a mãe, vendedora ambulante, organiza suas mercadorias. O trânsito é caótico: carros e motos ignoram o sinal vermelho; pedestres, bicicletas e vendedores se misturam nas faixas. Nas paradas de ônibus, longas filas se formam. Na véspera, uma jornalista argentina e um cinegrafista chileno foram assaltados à faca e terçado (uma espécie de facão) entre o Mercado Ver-o-Peso e a Estação das Docas, dois dos principais cartões-postais da cidade. Não se feriram, mas perderam equipamentos e documentos.
- Eu não queria que a COP fosse aqui - diz José, motorista de aplicativo que me leva até o Parque da Cidade.
Orgulhoso da arborização e da hospitalidade dos paraenses, ele teme, no entanto, que Belém não consiga oferecer a recepção que gostaria de dar aos visitantes.
- A gente gosta de bem-receber, pra pessoa voltar. Mas, do jeito que tá, vai ser difícil - lamenta.
A COP30 é anunciada como a COP das COPs — por ser a primeira no coração da Amazônia. Mas também é, inevitavelmente, a COP da desigualdade — e isso, talvez, não seja um problema. Uma cidade maquiar-se para um evento internacional seria encenação. O que se vê em Belém é o Brasil real: das idiossincrasias, das contradições, das feridas sociais expostas nas calçadas. E isso também é Amazônia — o bioma mais falado e menos conhecido do planeta.
Assim com os COP sediadas em países exportadores de petróleo expuseram suas próprias contradições, a COP amazônica é, também, uma oportunidade de revelar ao mundo os desafios do que, no ar-condicionado das plenárias, nos salões acarpetados da conferência, na teoria, os debatedores chamam de justiça climática.






