
Após passar o dia fechado em reuniões com delegações da União Europeia, de países árabes e africanos e de receber cientistas e representantes da sociedade civil, o presidente Lula fez um pronunciamento — foi prometida uma entrevista coletiva, mas não houve espaço para perguntas — na área da COP30, em Belém.
Diante do impasse que se criou em torno da manutenção ou não, nos rascunhos de documento final da conferência, dos termos relacionados ao mapa do caminho para o gradual fim dos combustíveis fósseis, criou-se a expectativa de que Lula chegara à capital paraense para ajudar a destravar o debate.
Lula, no entanto, evitou pressionar países a aceitarem o "mapa do caminho" proposto pelo Brasil para redução do uso de combustíveis fósseis.
O presidente optou, mais uma vez, por um discurso no qual enalteceu a realização da COP30 em Belém, em uma resposta indireta às críticas do chanceler da Alemanha, Friderich Merz, e no qual buscou apresentar-se como um conciliador em defesa do multilateralismo.
— Eu não tinha dúvida de que a gente ia fazer a melhor COP de todas as COPs que foram realizadas até agora. E aceitar Belém como espaço geográfico, que pudesse organizar aqui, um evento que não é nosso, é da ONU, foi um desafio e uma ousadia, porque seria muito mais fácil fazer em um lugar onde estivesse tudo pronto. E não tivesse o desafio de trazer para um lugar onde muitos brasileiros sequer conhecem. Tenho certeza de que China, Berlim, Paris conhecem Belém. A Rússia hoje conhece Belém. Tenho certeza de que muita gente do sul do país, do meu país, conhece hoje Belém — afirmou.
O presidente exaltou a participação de diferentes setores da sociedade — de empresários, de jovens, das mulheres e de indígenas. Conforme ele, 3,5 mil indígenas participaram do evento.
— Aqui, o povo foi mais povo. O povo participou mais — salientou.
Também de forma implícita, Lula referiu-se ao tema da segurança da COP30. O Brasil recebeu uma carta das Nações Unidas com críticas a forma como o Brasil lidou com esse tema, depois de uma tentativa de invasão da Blue Zone, a área de decisões. Ele citou eventos dos quais participou, com o que considerou excesso de "arame farpado e tanques".
— Se os lideres estão protegidos é porque não estão fazendo a coisa certa, porque, se tivessem feito a coisa certa, não precisaria tanta proteção — destacou.
Na parte final de seu pronunciamento, Lula destacou que os líderes dos países devem ter credibilidade:
— Porque se não fizermos o que prometemos, não terão mais motivo para acreditar. A questão climática é hoje uma coisa muito séria, que coloca em risco a humanidade.
Em parte emulando o discurso já feito durante a Cúpula dos Líderes, realizada antes da COP30, entre os dias 6 e 7 de novembro, o presidente afirmou que os países desenvolvidos devem financiar a transição energética e a adaptação de nações em desenvolvimento:
— Os países ricos precisam ajudar os países pobres
Também repetiu a ideia segundo a qual parte do lucro de empresas petroleiras e mineradoras deve financiar a transição energética.
— Por isso, colocamos a questão do mapa do caminho, para mostrar à sociedade, sem impor nada a ninguém, sem determinar prazo, que cada país determina as coisas que pode fazer, dentro de suas possibilidades: é preciso que a gente diminuam as emissões de gases gases de efeitos estufa.
Ele destacou a matriz energética brasileira, como majoritariamente formada por energia oriunda de hidrelétricas.
— Sou de um país que tem petróleo. Mas também sou do país que mais utiliza etanol na gasolina. Sou de um país que tem 87% sua energia elétrica limpa, e quero que todos tenham (isso). Por isso, os países ricos precisam ajudar os países pobres — disse.
Por fim, ressaltou seu apoio ao grupo de negociadores brasileiros presente na COP30.
De prático, mesmo, houve apenas o anúncio, por parte da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de que a Alemanha fará um aporte de 1 bilhão de euros (R$ 6,1 bilhão) no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Além da Alemanha, o TFFF já reúne compromissos de Brasil (US$ 1 bi), Noruega (US$ 3 bi), Indonésia (US$ 1 bi) e França (US$ 500 mi).



