
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, nomeado enviado especial do Brasil para a COP30, acredita que o agronegócio brasileiro está pronto para protagonizar uma virada global: mostrar ao mundo que a agricultura tropical pode ser parte da solução climática. À frente da missão de representar o setor na conferência, ele leva um documento que resume 50 anos de transformação do agro nacional, de país importador de alimentos a potência sustentável, com base em ciência, tecnologia e inovação.
Para Rodrigues, a COP30 é a oportunidade de o Brasil convencer o mundo de que produção e preservação podem andar juntas — desde que haja financiamento e comércio justo. Em um cenário global de insegurança e desigualdade, o ex-ministro defende que a agricultura tropical é chave para enfrentar os “quatro cavaleiros do apocalipse” contemporâneos: fome, energia, desigualdade e clima — e que o Brasil, com sua experiência e matriz energética renovável, tem condições de liderar essa transição de forma sustentável e pacífica.
A seguir, os principais trechos da conversa com a coluna.
O agronegócio brasileiro está preparado para atender metas de descarbonização e rastreabilidade, que deve ganhar força durante a COP30?
Acredito que sim. Inteiro? Não, não está. O agro brasileiro é um agro bastante plural e diversificado. Tem de tudo: desde o melhor produtor rural até o menos capacitado. Então, não se pode fazer uma afirmação genérica e única. De maneira geral, sim, está preparado. Tanto que estamos levando para a COP um documento bastante amplo para convencer o mundo. Tem duas partes. A primeira é a história do agro brasileiro, contando como foi possível sair de um país que há 50 anos importava 30% do que comíamos para exportar para 190 países do mundo. E a ênfase desse processo todo é ciência, tecnologia e inovação. Então, a vertente número 1 que vai estar explícita nesse documento é o papel da ciência, do desenvolvimento tecnológico, na agricultura brasileira. E o resultado é competitividade com sustentabilidade. A segunda parte é o seguinte: o Brasil está se oferecendo, para que toda essa tecnologia, todo esse conhecimento, a institucionalidade, a legislação, tudo o que foi feito nesses 50 anos, possa ser replicado no cinturão tropical do planeta, considerando, evidentemente, as diversidades. Não é tudo igual, a savana não é igual ao Cerrado brasileiro. Considerando as diferenças, o mundo tropical poderia replicar o que o Brasil fez. Para isso, duas questões são centrais: financiamento e flexibilização das regras de comércio. Se você mantiver um protecionismo como tem hoje, nenhum país vai entrar no mercado. Se não entrar no mercado, não vai produzir. O objetivo é mostrar que nós fizemos, na elite brasileira, um trabalho espetacular de ciência, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, que culminou em produtividade, sustentabilidade e competitividade. Essa é a ideia que eu estou preparando.
A agricultura é parte da solução do clima. Eu estou levando uma proposta muito ampla que se caracteriza como o estado da arte da política mundial.
A Agrizone, área do agronegócio na COP30, vem ao encontro de uma melhor comunicação?
Não só a Agrizone. Sou enviado especial da agricultura, uma posição de muito trabalho. Tenho de levar esse documento, que vou apresentar segunda-feira (3) para o André Corrêa do Lago (presidente da COP30). Falei: "André, eu não quero ser enviado especial, eu não vou em COP, eu não acredito nesse negócio". Essa reunião é muito interessante, mas não acontece nada de prático. E o André falou: "É exatamente o contrário. Eu tenho um ano de mandato pela frente, então a minha única ambição é, implementar tudo o que for decidido nessa COP, e nas anteriores também". Ele insiste que essa COP é do clima, não é a COP da agricultura. Mas a agricultura é parte da solução do clima. Eu estou levando uma proposta muito ampla que se caracteriza como o estado da arte da política mundial. As instituições perderam o protagonismo. O mundo ficou sem regras definidas, que indiquem direções. E cada um faz o que quer. O Putin invade a Ucrânia, e fica por isso mesmo. O outro faz uma guerra lá no Oriente Médio, fica por isso mesmo. Aqui, na Venezuela, aquela eleição fajuta... Então, o mundo está em um processo de erosão da democracia e da paz universal. E o Trump complicou, com a geopolítica dele. Nesse cenário brutal de incerteza, dúvida e tal, uma coisa é certa: temos de comer. Levantei, para efeito didático, uma imagem que está pegando na COP. O mundo é atropelado hoje por quatro modernos cavaleiros do Apocalipse, que são segurança alimentar, transição energética justa, desigualdade social e mudanças climáticas. Esses quatro estão ligados entre si. Quem vai resolvê-los é o cinturão tropical do planeta: a América Latina, a África e a Ásia, porque têm terra para crescer. Mas o único país que montou um projeto tecnicamente sustentável é o Brasil. Então, o Brasil pode ter um protagonismo de mudar esse cenário de falta de comida, de energia, etc, garantindo a única coisa que é fundamental para o mundo inteiro: a paz. Se você estiver com fome, não tem paz. Quero convencer o mundo de que a agricultura tropical é a solução para esses quatro fantasmas, e o Brasil é o líder nessa solução.
O nosso problema, é que o concorrente, a Europa, usa nossos defeitos do Brasil contra o agro. A ilegalidade.
O senhor era cético em relação à COP?
Era cético. É muito bacana, eu li todos os documentos, mas nunca fui a uma COP anterior. É pouco implementadora. No papel, é bonito. Mas cadê o financiamento? Todo mundo acha tudo lindo, mas, na hora que vão ver, as coisas ficam no papel. Mas o André Corrêa do Lago é meu amigo há mais de 30 anos. Conheço o André, eu gosto muito dele. Ele é um cara competente, é sério. Então, ele falou: "Roberto, é o contrário. Eu quero empreender. Por isso, eu preciso de você". É por isso que ele conta comigo. E eu topei por causa disso.
O agro ainda conta com setores que rejeitam as mudanças climáticas. Já está mais engajado ou menos cético em relação ao aquecimento global?
Eu acho, sim. Sabe por quê? Por causa do código florestal, que deu uma trombada no agro brasileiro, nos ambientalistas e nos produtores rurais. Ninguém ficou contente. O maior mérito do código florestal é que ninguém gostou. Sinal de é equilibrado. Só que o produtor aceitou. O ambientalista não aceitou. O produtor aceitou e se adaptou, se adequou. A questão ambiental passou a ser parte da agenda agrícola brasileira. "Ah, mas tem gente que não gosta". Tem, tem mesmo. Tem bandido de todo lado. Agora, o nosso problema, é que o concorrente, a Europa, usa os defeitos do Brasil contra o agro. A ilegalidade. Nós somos a favor de desmatamento ilegal? Não. Eu odeio desmatamento ilegal. Eu odeio invasão de terra. Eu odeio incêndio criminoso. Mas não é a agricultura que faz. É bandido que faz. Só que o concorrente diz: "eles desmatam a Amazônia para fazer carne". E aí, nosso produto fica boicotado no mercado. Mesmo assim, nós exportamos para 190 países.
É protecionismo travestido de discurso ambiental?
Exatamente. Então, o que eu tenho que fazer? Acabar, porque é ilegal. Porque nós somos sustentáveis, somos bons, somos eficientes, somos ambientalistas, mas não somos bandidos. Então, tem de botar o bandido para fora. Aí é problema do governo. Não é problema nosso, é problema do governo.
E os biocombustíveis na transição?
A matriz energética brasileira tem 50% renovável. A do mundo é 15%. Agora, desse 50% que é renovável no Brasil, 60% é agricultura, é etanol de cana, é etanol de milho, é biodiesel de sódio, é biodiesel de óleo de pó, é eletricidade de congelação, é lenha, é água. Então, na matriz energética brasileira, 30% é agricultura. Então, isso é que é renovável e é muito sustentável. O álcool de cana emite 11% do carbono que a gasolina emite. É um negócio fantástico. Tanto que as cidades brasileiras são muito menos poluídas do que as cidades europeias. Eu como enviado especial, tenho que fazer dois eventos na Blue Zone (a área das negociações da COP30). Um vai ser sobre isso, biocombustível. E eu estou chamando do "o céu é o limite", porque, com o SAF (combustível de aviação) o céu é o limite mesmo. Então, eu estou muito esperançoso de que a gente consiga mostrar para o mundo que o agro tropical vai resolver as questões centrais de fome, energia, etc. E o Brasil vai ser o comandante desse processo.





