
Às vésperas de completar dois anos da guerra no Oriente Médio — deflagrada pelo massacre promovido pelo grupo terrorista Hamas em Israel, em 7 de outubro de 2023 —, o plano de paz proposto por Donald Trump para encerrar o conflito em Gaza apresenta lacunas que geram ceticismo.
Nesta sexta-feira (3), o Hamas concordou em libertar todos os reféns, mas o anúncio não corresponde à aceitação total do projeto de 20 pontos apresentado pelo presidente americano.
Na proposta, já aceita pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, há uma desconexão com a lógica do terror, marcada pelo lema “quanto pior, melhor”, típico do fundamentalismo wahabita que o Hamas professa. O grupo não quer a paz. Nunca quis. Para quem se sustenta politicamente com a morte e o medo, acordos de paz não são vantajosos.
Eis alguns dos pontos nebulosos do plano:
1. Anistia ao Hamas
O plano prevê anistia ou retirada segura dos membros do Hamas de Gaza. Nada garante que esses combatentes não se reorganizem em países vizinhos. Vale lembrar que o Hamas surgiu como braço da Irmandade Muçulmana no Egito e, nos últimos anos, seus líderes viveram com conforto no Catar, enquanto a população palestina seguia aprisionada em Gaza.
2. "ANP revitalizada"
Trump propõe que Gaza passe a ser administrada por uma “Autoridade Nacional Palestina revitalizada”. O problema é que não existe tal entidade. A ANP atual é fraca, deslegitimada internamente, marcada por denúncias de corrupção e sem sucessão planejada — Mahmoud Abbas, já idoso, evitou qualquer transição de liderança.
3. A lógica colonial reeditada
Pelo plano, Trump atuaria como “CEO” de um “Conselho da Paz”, tendo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair como executor. Em linguagem corporativa, reedita-se a velha lógica colonial do período entre-guerras, quando o Oriente Médio foi dividido em mandatos controlados por potências europeias. Que garantias existem de que o “CEO” não tentará ressuscitar ideias como transformar Gaza em uma “Riviera”, com direito a Trump Tower e estátuas em sua homenagem?
4. Força internacional
A proposta prevê uma força internacional de estabilização. A ideia é boa, mas carece de viabilidade. Quais países integrariam esse contingente, considerando que Trump despreza instituições multilaterais e brigou com aliados históricos dos EUA?
5. Plano econômico sem patrocinadores
O plano também sugere um programa internacional de reconstrução de Gaza. No entanto, quem estaria disposto a investir em um território devastado? As ditaduras árabes? As petromonarquias que, por décadas, negligenciaram os palestinos e instrumentalizaram sua causa a partir de uma distância segura?
Identificar as falhas do plano não significa desprezar a urgência de estancar a matança ou de libertar os reféns ainda sob poder do Hamas. Talvez seja a única tábua de salvação a que a humanidade dispõe neste mar de insanidade — e, nisso, há méritos.
Mas a proposta precisa ser analisada com realismo, mais pelo que omite do que pelo que declara.
O plano menciona um “caminho crível para a autodeterminação e o Estado palestino no futuro”, reconhecendo que essa é uma aspiração do povo palestino. Porém, essa formulação é condicional, projetada para o longo prazo, e subordinada a reformas e a uma transição política que nem sequer começou. Não há compromisso formal com o reconhecimento de um Estado palestino já nas etapas iniciais da proposta. Só haverá paz duradoura com dois Estados soberanos, Israel e Palestina, independentes e mutuamente reconhecidos.
Além disso, o plano silencia sobre temas cruciais: não menciona a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, ignora o status de Jerusalém Oriental e não aborda a delicada questão dos refugiados palestinos.
Não há garantias de que não haverá anexação por Israel nem de que o Hamas deixará de existir.
No formato atual, o plano de Trump está mais próximo de uma carta de intenções do que de um roteiro concreto para a paz. Falta densidade. Sobram hiatos. Mas, se servir para calar os canhões, levar de volta os cativos para seus familiares em Israel e conduzir comida às bocas dos palestinos famintos de Gaza, já terá cumprido um imenso papel na história.

