
A coluna preparou um guia sobre a política recente argentina. O país vizinho realiza eleições no próximo domingo (26), que são consideradas decisivas para o futuro do presidente Javier Milei. Veja os principais pontos.
O que é?
No próximo domingo (26), 36 milhões de eleitores estarão aptos a votar nas eleições legislativas de meio de mandato na Argentina. Será renovada a metade das cadeiras da Câmara dos Deputados (127 de 257 vagas) e um terço do Senado (24 de 72).
Por que é importante?
As eleições de meio de mandato costumam ser uma espécie de plebiscito para o presidente. No caso do atual Javier Milei, é ainda mais relevante porque seu governo, ao vencer, em 2023, rompeu o ciclo de partidos tradicionais na Casa Rosada. Ao assumir, o presidente considerado "libertário" implementou uma agenda de forte ajuste fiscal e redução da máquina pública. A eleição é importante para os planos de Milei, que pretende ser candidato à reeleição em 2027.
Como está a economia?
A queda da inflação, principal drama dos argentinos nos últimos anos, é o principal trunfo de Milei. O índice caiu de 25,5% para 2,1% ao mês. A pobreza, outra chaga hermana, também diminuiu - de 52% para 31,6%. Pela primeira vez em 15 anos, a nação fechou o ano com as contas no azul, e o risco-país, medido pelo J.P. Morgan caiu. Porém, inflação menor não significa que os produtos ficaram mais baratos - na verdade, eles sobem menos do que antes. Por muito tempo, os salários ficaram congelados, dentro da lógica de Milei, que, ao assumir, anunciou que a situação ficaria muito pior antes de melhorar. O poder de compra dos argentinos perdeu força - e esse indicativo tem impacto enorme entre as classes média e baixa, que costumam definir a eleição. Nos últimos dias, o dólar voltou a subir, obrigando o governo a desvalorizar o peso. Alguns setores econômicos cresceram, principalmente energia, minérios e agronegócio. Os cortes atingiram em cheio o setor público.
Qual é a aprovação do governo Milei?
Pesquisa do Instituto AtlasIntel em parceria com Bloomberg mostrou, em setembro, aprovação de 42,4% (no mês anterior era de 43,8%). Há uma tendência de aumento da desaprovação, que, nesse levantamento, realizado entre os dias 10 e 14 daquele mês, ficou em quase 53,7% (51,1%). A corrupção é apontada como um dos problemas mais importantes por 37% dos argentinos, seguida do desemprego (32%) e alta dos preços/inflação (31%). Nas eleições legislativas provinciais, termômetro do pleito de domingo, o partido do governo sofreu várias derrotas - a principal delas, na província de Buenos Aires, maior colégio eleitoral do país (onde está 40% do eleitorado), o revés foi significativo. Os peronistas conquistaram 47,2% dos votos, enquanto o partido de Milei, 33,7%.
Por que corrupção?
Áudios vazados relacionam a secretária-geral da Presidência e irmã do presidente, Karina Milei, a um escândalo referente a uma suposta rede de subornos na Agencia Nacional de Discapacidad (Andis). Ela receberia dinheiro de indústrias farmacêuticas para compra de medicamentos para a rede pública. Em agosto, o presidente precisou ser retirado às pressas de um evento público em Lomas de Zamora, após ser atacado com pedras.
Como está a balança de poder no Congresso?
O governo Milei não tem maioria nem na Câmara nem no Senado, o que faz com que sofra seguidas derrotas parlamentares. A Unión por la Patria (peronista) tem 98 cadeiras, contra 39 de La Libertad Avanza (governista). Outros dois partidos. O governo precisa do apoio do PRO e da UCR para aprovar seus projetos. No senado, a aliança de Milei tem apenas sete parlamentares, contra 33 da Unión por la Patria. Milei pretende, no mínimo, duplicar o número de parlamentares nas duas Casas - mas, mesmo assim, não teria maioria, o que indica dificuldades à frente.
Como está a oposição?

Após a derrota de Sergio Massa para Milei em 2023, o kirchnerismo ficou bastante abalado, revés aprofundado pela prisão domiciliar por corrupção de sua principal líder, a ex-presidente Cristina Kirchner. Hoje, o principal nome da oposição na ativa é o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, ex-ministro da Fazenda do governo Cristina. Outros nomes são Máximo Kirchner, deputado, filho da ex-presidente e líder da bancada do Unión por la Patria na Câmara, e o próprio Massa.
Qual o peso do fator Trump?

Como tem feito no Brasil, o presidente americano, Donald Trump, vem tentando influenciar a política argentina. Na semana passada, condicionou o resgate financeiro à vitória do presidente nas próximas eleições.
- Estou com este homem porque sua filosofia está correta, e ele pode vencer, ou não. Mas acho que ele vai vencer, e se vencer, continuaremos com ele, e se não vencer, estamos fora - disse Trump.
Os comentários foram feitos poucos dias depois de o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciar um resgate de US$ 20 bilhões após a forte queda do peso argentino após um desempenho decepcionante do partido La Libertad Avanza, de Milei, nas eleições do mês passado.
As relações com os EUA levaram à queda do atual chanceler, Gerardo Werthein, que entregou o cargo na quarta-feira (22) em meio a uma crise após ele não conseguir o apoio político esperado por Milei.





