
Dizer que o mundo não conseguirá limitar a 1,5°C a elevação da temperatura do planeta em relação aos índices pré-industriais é, com o perdão do trocadilho, um banho de água fria às vésperas da COP de Belém. A estimativa é do secretário-geral da ONU, António Guterres.
Esse é o número mágico, argumento dos argumentos, para reduzir emissões de gases que provocam o efeito estufa e o alvo repetido como mantra desde o Acordo de Paris, em 2015.
Diante de olhar pessimista é quase como um "perdemos a batalha". Se o Protocolo de Kyoto, que comprometia, com metas, apenas países ricos, não conseguiu frear o aumento da temperatura, tampouco o acordo assinado na COP15, na capital francesa, que veio para substituí-lo, chegou lá.
É o fracasso do regime do clima? Justamente em um momento em que o mundo está mais egoista?
Não necessariamente. Quando Guterres afirma que a meta de 1,5 °C “já não será possível”, ele não está dizendo “acabou a luta” — mas acendendo um alarme vermelho. A realidade científica exige que se mude de patamar: agir com mais intensidade, aceitando que os impactos serão mais graves, planejando para esse novo contexto e aumentando o nível de ambição e urgência.
E agora? O que muda? Se limitar a 1,5 °C se torna cada vez mais improvável, a agenda internacional de clima precisa se ajustar. O que fazer:
1) Mitigação forte: reduzir emissões drasticamente o mais rápido possível, não mais apenas visando “evitar 1,5 °C”, mas para limitar os danos futuros.
2) Adaptação e resiliência: preparar sociedades, economias e ecossistemas para impactos maiores do que se esperava antes — porque o “cenário ideal” (limite de 1,5 °C) está mais difícil.
3) Cresce a necessidade de mecanismos para lidar com os impactos inevitáveis: eventos extremos, elevação do nível do mar, secas prolongadas, etc. A discussão sobre “perda e dano” torna‑se ainda mais central.
4) A declaração de Guterres acentua que os países em desenvolvimento — que menos contribuíram para o aquecimento global, mas sofrem mais os efeitos — têm de receber apoio financeiro, tecnológico e institucional para adaptação, recuperação e mitigação.
Em resumo: mesmo que 1,5 °C seja difícil, não significa que se deve desistir das ambições climáticas. Alcançar o menor aquecimento possível, evitar que se chegue aos 2 °C ou até mais, e retardar impactos severos, continua valendo.
As mudanças tecnológicas, regulatórias, comportamentais devem avançar com mais rapidez e escala. Os setores que mais emitem (energia fóssil, transporte, agricultura intensiva) precisam de transformação mais rápida.


