
O incrível roubo de joias históricas e de valor incalculável no Museu do Louvre, em Paris, é a síntese simbólica de um governo em colapso.
Ministros de Emmanuel Macron admitem falha do Estado em proteger o patrimônio cultural e anunciaram revisão nacional da segurança de museus. A falha gigantesca fere a credibilidade de um país que se orgulha de seu patrimônio histórico e cultural. O Louvre é parte fundamental do “soft power” global francês.
A segurança falha, o patrimônio violado e o Estado impotente diante dos larápios conformam uma tempestade perfeita. Macron já enfrentava uma escalada de crises políticas, econômicas e sociais muito antes do roubo: reformas bloqueadas, parlamento instável, insatisfação popular crescente, e agora a vulnerabilidade naquilo que a França considera intocável.
Desde meados de seu segundo mandato, o presidente vinha enfrentando desafios que minaram sua autoridade e levaram muitos franceses a pedir sua renúncia. Após a dissolução abrupta da Assembleia Nacional, em junho de 2024, Macron convocou eleições legislativas antecipadas que resultaram em um parlamento altamente fragmentado, sem maioria clara para o seu bloco centrista. Em menos de dois anos, a França teve cinco primeiros-ministros.
A tentativa de empurrar adiante a controversa reforma da Previdência — elevando a idade mínima de 62 para 64 anos — gerou protestos em larga escala, rebelião de reservistas, greves de setores públicos e uma erosão da confiança pública na liderança.
Ao mesmo tempo, há crescente decepção tanto com o pós‑covid-19 quanto com a performance econômica: dívida elevada, déficit público, inflação persistente e desigualdades sociais ampliadas. A percepção é de que Macron não cumpriu várias de suas promessas de “novo pacto social”.
O índice de confiança no presidente francês despencou neste último mês, chegando a 14%, segundo uma pesquisa do instituto Elabe, divulgada na quinta-feira (9). Ele bate seu próprio recorde de impopularidade e se iguala ao recorde do socialista François Hollande, em novembro de 2016, o nível mais baixo já registrado no país.
A dívida pública superou os 3,3 trilhões de euros, ou 114% do PIB. A França não consegue fechar o orçamento público com rombo inferior a 5% do PIB desde a pandemia, enquanto o gasto estatal chegou a 57,2% do PIB. Os cidadãos franceses rejeitam as reforças necessárias para estabilizar as contas públicas — exemplo disso é a elevação da idade mínima para aposentadoria de 62 para 64 anos, que provocou uma revolta social.
O aumento da dívida pode levar um dos líderes da União Europeia (UE) a buscar (humilhação das humilhações) socorro no Fundo Monetário Internacional (FMI). A França ainda não é a Grécia, mas muitos já se referem à França como o novo homem doente da Europa.




