
Ao ordenar que a CIA opere na Venezuela para derrubar Nicolás Maduro, Donald Trump exibe uma face meio Bush pai, meio Bush filho.
O primeiro usou a guerra às drogas como argumento para intervir no Panamá e depor o ditador Manuel Noriega. O segundo esticou a guerra ao terror do Afeganistão ao Iraque sob o argumento das nunca encontradas armas de destruição em massa para derrubar Saddam Hussein.
Os dois aforismos — guerra às drogas e ao terror — são exemplos perfeitos do que, nas Relações Internacionais, chamamos de securitização: quando um tema da política normal é elevado à urgência, justificando tomadas de decisões que, em geral, solapam direitos humanos e soberania. Afinal, se a segurança nacional está em perigo, o que mais pode ser dito? É o argumento dos argumentos, no caso do Estado.
Qualquer tema pode ser securitizado: um vírus, no caso do H1N1, ou a problemática das drogas.
Aplicada à América Latina, a suposta ordem de Trump faz reaparecerem fantasmas da Guerra Fria, quando a CIA atuou em larga escala na América Latina em países como Cuba, Chile, Panamá, Equador, Guatemala, Haiti e... Brasil. Nas últimas décadas, inúmeros documentos desclassificados pelo governo dos EUA comprovaram o envolvimento americano no golpe militar de 1964. Alguns mais recentes, revelam informações até então sigilosas do governo de John F. Kennedy. Por exemplo: a CIA, em 1963, afirmava que o então presidente João Goulart "vivia em um mundo de fantasia" e endossava a tese de que ele pretendia dar um autogolpe e instaurar uma ditadura comunista.
Outros textos confirmam que havia um plano de contingência: a chamada Operação "Brother Sam" previa o uso de navios de guerra americanos e o fornecimento de armas e combustível para os insurgentes, mas foi cancelada horas depois da derrubada de Goulart.
A Doutrina Monroe é sempre convocada a explicar intervenções no continente. Em 1823, o presidente James Monroe estabeleceu esse princípio "de América para os americanos" a fim de excluir a ação de potências extrarregionais no continente. Monroe só não disse que, no caso dos EUA, tudo seria permitido.
Maduro é um ditador, mantém a imprensa calada e a população, refém. Mas isso não dá aos EUA o direito de violar a soberania de um país independente.



