
Natural de Belém, no Pará, Pedro Henrique Antunes Pantoja, 33 anos, está recluso há um ano e três meses em um centro de detenção de prisioneiros de guerra na Ucrânia. Zero Hora conversou com o voluntário, que atuou pelo exército russo na guerra e se rendeu em Zaporizhzhya, em 4 de junho de 2024.
Ele conversou com a reportagem por cerca de 20 minutos, durante uma visita ao local por parte de um grupo de jornalistas de países de língua portuguesa, do qual ZH fez parte. O ingresso dos repórteres foi organizado pelo Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, durante viagem a convite da União Europeia. Pedro Henrique é o único brasileiro no centro de detenção. O número total de internos não é divulgado pelas autoridades. A seguir, os principais trechos da conversa, que ocorreu próximo à goleira do campo de futebol do centro. Antes de lutar na guerra, Pedro Henrique trabalhava como programador de tecnologia da informação na Austrália.
Você estava morando na Rússia quando decidiu se alistar?
Não, fui como voluntário em 2024. Precisamente no dia 3 de março de 2024. E assinei contrato no dia 5 de março e, depois, fui para treinamento. Fui mandado para uma unidade de serviço de inteligência militar e, depois, trabalhei como operador de drones. Depois de três meses trabalhando na linha de frente, fui capturado e feito prisioneiro de guerra.
Por que você decidiu ir para a guerra? Por dinheiro, pelo desejo de lutar? Você tinha experiência militar?
Não, não tenho nenhuma experiência militar. Minha aspiração, primeiramente, foi por trabalho. Em segundo lugar, passaporte, documentação. Talvez uma aspiração de ter uma experiência mais longa na Rússia. Claro, por uma medida extrema de ir para a guerra.
Você deseja ser trocado por prisioneiros ucranianos e voltar para a Rússia ou para o Brasil?
Seguramente, voltar para a Rússia. Não tenho até o momento nenhuma aspiração de voltar para o Brasil. Antes de ir para a Rússia eu estava vivendo na Austrália. Eu estava fora do Brasil há mais de 10 anos. Meu desejo inteiramente é voltar para a Rússia como soldado russo que fui e que sou. Cem por cento voltar para a Rússia e me estabelecer lá.
Quando você assinou contrato, tinha a percepção do objetivo russo nesta guerra?
Não, quando assinei o contrato, não tinha percepção plena do que era esse conflito. Se posso chamar de guerra ou de operação militar especial, não tinha a devida dimensão. Acompanhava nas mídias sociais e jornais tudo o que era relativo à guerra, à operação militar especial, e isso me chamou atenção, capturou meu interesse. Fui sem muito conhecimento, inclusive do processo. No entanto, na unidade militar em Moscou na qual fui fazer meu alistamento, tive um grande suporte, de tradutores, de todo tipo de pessoas que estavam ajudando.
Você não fala russo?
Agora, falo russo. Mas naquele momento não falava. Tive todo o suporte.
Havia outros brasileiros com você?
Não, nunca vi outros brasileiros. Vi americanos, indianos, marroquinos, egípcios, muitos países. Todos em condições similares, como voluntários, para assinar contrato pelo menos por um ano.
Há muitos brasileiros que lutam pelo lado ucraniano. Por que você escolheu o lado russo?
Tenho conhecimento de alguns autores russos, da história russa. Não tenho conhecimento da Ucrânia em si, de sua economia, de sua política. E tenho mais em relação à Rússia, então tenho inclinação maior em relação à Rússia, a sua política, história, cultura, literatura. Para mim, foi uma oportunidade fazer parte disso, porque tenho agora conhecimento do que está se passando pelo viés russo. Tenho conhecimento da língua russa, da cultura russa, estou sofrendo como russo, fui para o front e fui ferido pela causa russa.
Você se sente um cidadão russo?
Não me sinto cidadão russo. Tenho plena consciência de que sou um brasileiro que estava lutando pelo lado russo. Não penso que serei russo. Penso que vou ter um documento russo, cidadania, isso obviamente não me faz um russo por história, por sangue. Sou um brasileiro. Nasci e fui criado no Brasil. Tenho muito carinho e respeito pelo Brasil. No entanto, minha livre escolha agora é ir para a Rússia e viver na Rússia.
Como você foi ferido?
Fui ferido por granadas, que foram atiradas por drones. Recebi uma missão específica na linha de frente. E fui encontrado por dois drones. Era por volta de 23h, uma escuridão total. Um drone ao meu lado esquerdo, outro do lado direito, por volta de 50 metros acima de mim. Começaram a dropar granadas. Fui ferido quatro vezes, mas consegui escapar. Depois de perder muito sangue, ficar bem fraco, resolvi me render ao exército ucraniano.
Como você está sendo tratado no centro de detenção?
É, claro, um centro bastante rígido. Tenho minhas responsabilidades aqui, tenho meu trabalho. Tem horário para tudo. No entanto, infelizmente, tenho sido tratado de forma bastante hostil. Gostaria de deixar isso bastante claro, registrado. Bastante hostil pelas autoridades ucranianas, violência, inclusive.
Que tipo de violência?
De todo tipo: violência física, moral, psicológica. Estou aqui neste campo há exatamente um ano, e tendo recebido todo tipo de violência. Uma vez, estava no meu local de trabalho pela manhã, e teve uma inspeção de policiais militares que trabalham ao redor deste campo, que cuidam do perímetro. Uma vez por mês, fazem uma inspeção geral neste campo. Quando fui inspecionado, meu corpo, minhas roupas, um policial militar perguntou de onde era. Falei que era brasileiro. Ele perguntou se eu tinha assinado contrato. Eu falei que sim. Ele, imediatamente, me deu um soco. Obviamente, do meu rosto jorrou muito sangue. Fui para o chão. E nada foi feito. Outros policiais começaram a rir, a fazer chacota. Nada foi feito. Foi apenas um exemplo. No meu prédio, no local em que estou, só com estrangeiros, a gente recebe violência física praticamente toda semana. Comunicamos à Cruz Vermelha Internacional, até o momento, não sei que medida foi tomada.
Você espera algo do governo brasileiro?
Mandei uma mensagem para a minha família por meio da Cruz Vermelha, pedindo uma certa ajuda. Foi há nove ou 10 meses. Não entendo o que está se passando em relação a estrangeiros capturados no exército russo. Pedi ajuda para a minha família contatar a embaixada do Brasil em Kiev, mas não responderam nada. São omissos. Isso é frustrante. Não sei em que ponto está o pensamento do governo brasileiro em relação a mim como prisioneiro. Não tive nenhum contato, nenhuma visita. E Kiev, tem embaixada brasileira. No entanto, não recebi nenhum tipo de visita, comunicado. Em seguida, tive uma outra oportunidade de mandar uma carta a minha família, disse a eles que contatassem a embaixada do Brasil em Moscou para que pudessem me ajudar ou confortá-los. De três em três meses, consigo me comunicar com minha família por intermédio da Cruz Vermelha.
Você recebe também cartas?
Infelizmente, nunca recebi uma carta. Recebi apenas uma mensagem via WhatsApp de duas linhas do meu irmão por meio da Cruz Vermelha. Não sei por quê.
Você tem receio de sofrer retaliação no centro depois de fazer essa denúncia?
Não tenho nenhum receio, porque entendo que estou protegido pela Cruz Vermelha Internacional, que está ativamente trabalhando neste campo. No entanto, trabalham aqui de três em três meses. Quando chegam aqui, a esse campo, por mais ou menos duas semanas, fazem todo processo de inspeção, entrevistas com todos os prisioneiros. Então, a gente se sente protegido. No entanto, quando eles saem daqui, esse campo de prisioneiros vira selvagem. Não entendo porque disso. Todas as autoridades, policiais militares, dizem que estão totalmente de acordo com os artigos da Convenção de Genebra.
Eles dizem que não andam armados. Você viu armas aqui dentro?
Vejo facas, mas pistolas e revólveres, nunca vi.
Gostaria de mandar mensagem a sua família?
Para minha família, infelizmente, é muito delicado. Entendo que minha mãe, meus familiares, devem estar sofrendo bastante com minha ausência, principalmente em uma condição deplorável como essa, triste como essa. Mas espero que minha família esteja suportando tudo isso com paciência, muita calma. Tenho tentado confortá-los em cada oportunidade que tenho de mandar uma carta. E espero fortemente que esse conflito possa ser, de alguma maneira, ser resolvidos, e que todos os prisioneiros de guerra possam retornar para a Rússia, para suas casas.
Contrapontos
Procurado, Vitalii Matviienko, representante do Centro de Coordenação e porta-voz do centro de detenção, respondeu à reportagem sobre as denúncias apresentadas pelo jovem de ter sofrido violência dentro da unidade prisional.
“É impossível que ele tenha recebido esse golpe. Porque todos os prisioneiros estão ficando no campo. E as coisas como descreveram estão totalmente proibidas. Nós já ouvimos várias vezes quando os prisioneiros, quando falam com jornalistas, usam esse tipo de manipulação. Quando eles falam com vocês, eles podem dizer o que quiserem, não controlamos. Não recomendo pensar que é verdade. A questão é que uma força pode ser usada nas primeiras etapas, quando o russo é pego na fronteira para ficar detido. Lá, talvez, no início talvez aconteça, mas pessoalmente nunca vi isso.”
Também procurado pela reportagem, o Itamaraty afirmou, por nota, que monitora o caso de Pantoja.
O Itamaraty informou que, por intermédio da Embaixada do Brasil em Kiev, foi notificado do caso e o monitora, em contato com as autoridades locais.




