
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Milhares de jovens da geração Z — nascidos entre 1995 e 2010 — lideraram uma fulminante revolução no Nepal, que chegou a derrubar o primeiro-ministro KP Sharma Oli. Os protestos, que resultaram em mais de 20 mortes em dois dias, foram desencadeados pelas restrições impostas pelo governo às redes sociais e pelo combate à corrupção.
Na terça-feira (9), por exemplo, ocorreu o auge dos confrontos, quando manifestantes invadiram o complexo do parlamento e atearam fogo ao prédio público. Além disso, incendiaram a casa do ex-primeiro-ministro Jhala Nath Khanal, onde estava sua mulher, Ravi Chirrakar, que não resistiu aos ferimentos.

Há pelo menos três pontos que levaram ao confronto. Em primeiro, a corrupção e a economia fraca. Após uma guerra civil que durou uma década, o Nepal fez a transição de monarquia para república em 2008. Desde então, há uma insatisfação quase que generalizada.
A questão econômica é grave: o país vive com alta taxa de desigualdade social, uma das bandeiras das manifestações dos últimos dois dias. De acordo com dados do Banco Mundial, um em cada cinco nepaleses vive na pobreza, e 20% dos jovens entre 15 e 24 anos — principal faixa etária dos manifestantes — estão desempregados (dados de 2024). A ONU considera o país um dos 44 menos desenvolvidos do mundo.
Na esteira da crise econômica e da insatisfação com as autoridades, um movimento online ganhou força nos últimos meses contra os chamados "Nepo Kids". Basicamente, vídeos de filhos de políticos exibindo vidas luxuosas viralizaram, contrastando brutalmente com a realidade da maioria da população.
O estopim mesmo foi uma medida recente do governo que proibiu redes sociais no país. Na última semana, o governo do Nepal decidiu banir 26 plataformas — incluindo WhatsApp, Instagram e Facebook. Na justificativa, alegou-se que a proibição visava combater notícias falsas, discurso de ódio e fraudes online.
As plataformas são vistas pela população como parte essencial da vida, com um alto índice de uso de redes sociais. Segundo dados da Autoridade de Telecomunicações do Nepal, a penetração da internet atinge 90% da população.
Embora não haja uma liderança central, vários coletivos surgiram durante os protestos. A geração Z é considerada a primeira "nativa digital", ou seja, que cresceu imersa na internet.
Agora, com a queda do primeiro-ministro, não está claro quem o substituirá. O presidente do Nepal, Ram Chandra Paudel, já iniciou o processo para escolher um novo premiê e pediu “a todos, incluindo os manifestantes, que cooperem para resolver pacificamente a difícil situação do país”. Também foram colocados em prática "toques de recolher".




